Na publicação anterior, revisitamos alguns temas já tratados em nosso evento e anunciamos uma das macro tendência desse ano: o Burnin.

O Senac Moda Informação, em seu propósito de ressignificar a pesquisa de tendências, traz aqui uma curadoria, feita por Larissa Henrici, com alguns pontos para reflexão e construção de novas perguntas.

À Flor da Pele

Por Larissa Henrici

À  flor da pele é um estado de extrema sensibilidade e instabilidade, geralmente envolvendo mais emoção que razão. Um estado que pode ser ruim para tomar decisões assertivas e claras, mas pode ser ótimo para entrar em contato com emoções profundas e sintonizar com suas verdades.

Pensando que a pele é a barreira física biológica do nosso corpo, e estando ela em estado de alerta, sentimos nosso limite na carne: nossas barreiras estão sensibilizadas.

É fácil, ao se falar em moda, fazer a ponte desse assunto para a roupa, pois comumente definimos a roupa como nossa segunda pele. Ela então seria a nossa barreira física artificial mais acoplada ao nosso corpo.

Não se faz necessário aqui divagar sobre a importância social, sanitária, imagética da roupa como tema de estudo, mas falaremos sim dessa pele e de outras peles que nos são mais “distantes do corpo”.

Que peles são essas?

O artista, arquiteto e ativista austríaco Hundertwasser [1928-2000], que em sua teoria “A beleza das Cinco Peles”olhava para o mundo como uma extensão de nossa epiderme, sendo a primeira a pele, a segunda a roupa, a terceira nossa moradia, a quarta o meio social e a quinta a biosfera.

A moda nesse contexto se torna um prisma por onde enxergamos todas essas camadas sensoriais.

Quando falamos de tendências, precisamos entender os níveis do que estamos enxergando:

 1. O que está acontecendo em um nível local;
2. Individual;
3. Em um nível amplo/macro.

 

É como aumentar ou diminuir o zoom sob qual ângulo vemos os momentos da nossa vida em sociedade: micro, macro, passado (backcasting) e futuro (forecasting).

Em meio a tantos estímulos, esse olhar carece de algum fio condutor.

É necessário método e uma certa organização nesse caos e, em especial, no caos digital chamado big data.

Em resumo, esse olhar facilita a curadoria, onde podemos contar com uma edição/recorte, para nos trazer os highlights (pontos chave), a fim de filtrar, facilitar e mediar os conhecimentos e informações.

Uma ferramenta disponibilizada pelo Google, Google Trends, permite um monitoramento de itens buscados no varejo.
A ferramenta interativa permite entender as categorias do varejo que estão despertando mais interesse na pesquisa do Google, os locais em que elas estão crescendo e as consultas associadas a elas.

Veja abaixo alguns itens que buscamos:

Primeira pele: Orgânica

Para além do tema que já tratamos aqui sobre o movimento slow beauty, a atualidade nos direciona para um olhar mais atento a respeito de nossa epiderme, como um ponto de contato para transmissão de vírus.
Sobre esse aspecto biológico, o aumento da venda de produtos cosméticos que cuidam da pele tem sido um fenômeno.
A indústria muda o termo “procedimentos de beleza” para “rituais de autocuidado”.

Tivemos também um aumento por interesse sobre obras de ficção que refletem a respeito de nossa realidade:

Ensaio Sobre a Cegueira, 2008 , direção Fernando Meirelles

Contágio, 2011,direção  Steven Soderbergh

Deranged, 2012 , direção  Park Jung-woo

Como você tem se relacionando com sua saúde e seu corpo?

A procura por cuidados com os lábios cresceu 70% com o frio, segundo dados do Google Trends.

Segunda pele: Roupas

Adotamos um novo item ao vestir:  o uso de máscara como medida de segurança, mas sem escapar da apropriação do discurso estético e como símbolo.

Sobre vestir em casa:

Athleisure,
Modelagens adaptadas,
Activejeans

“Vestuário acima do teclado” como nomeou o WGSN.

Sobre as plataformas de vendas e promoção e análise de dados:

Roupa virtual,
Showroom digital no Brasil,
Desfile 3D,

Fashion week digital,
Marketplace
Amaro,
Omnichannel,
Realidade virtual
Google trends.
Revistas de moda
O que fazer com o estoque?
Estoques de lojas fechadas
Novo calendário internacional
Logística

O que você tem escolhido para vestir?

Fez alguma espécie de limpeza no guarda-roupa? Está preferindo algum tipo de tecido ou cores?
A procura por chinelos e pantufas cresceu 800% desde o início do distanciamento social!

Terceira pele: O morar

Da roupa para a casa
Novas formas de viver

Como está sua relação com sua casa?

Alguns detalhes estão saltando aos olhos, ou mudou móveis de lugar?
Categorias, como cama, mesa e banho tiveram crescimento de 99%, também segundo o Google Trends.

Quarta pele: Sociedade/Comunidade

Paradigmas da moda
Se a imagem é tudo onde fica o ser humano?
Ailton Krenak, no Fashion Revolution 2020
É possível uma moda sustentável nesse sistema?
E se não existissem semanas de moda?
A revista Elle conversa com profissionais de moda na quarentena.
Desafios dos profissionais da moda

Consumo
Compra por vingança

Filme
O Poço,2019, direção Galder Gaztelu-Urrutia

Como você se sente sobre as questões sociais atuais?

Aqui destaco um dado misterioso da ferramenta que mostra grande procura por tacos de baseball aqui no Brasil, um país que não tem a prática desse esporte forte em sua cultura, ainda mais agora que não podemos sair de casa.

De onde vem o desejo por esse objeto?

Para qual fim senão o próprio esporte?

Deixamos para vocês pensarem…

Como anda sua relação com a natureza?

Está mais consciente sobre questões ambientais, procurando poluir menos?
De fato, a terra está respirando melhor com diminuição da emissão de co2.

Em 2017, na edição 1.17 do Senac Moda Informação, tivemos uma instalação no Galpão Vídeo Brasil, que consistia em um cômodo escuro. Neste cômodo, alguns bancos e uma palavra iluminada em destaque: silêncio. A proposta da instalação era equilibrar, meditar e refletir sobre os excessos que nos acometiam. Três anos depois, essa prática se faz ainda mais necessária. Se eu tivesse que trazer uma imagem para esse tempo seria esta.

Imagine quando a luz acaba na sua casa.

Qual a sensação no seu corpo, a sequência do seu raciocínio?

Você pode sentir um susto inesperado, seus instintos se aguçam, você escaneia mentalmente o espaço, tenta se situar e, se caso tiver outras pessoas com você, verifica se está tudo bem. Você grita em redundância ao acontecimento “acabou a luz!”. Talvez tenha reflexos automáticos de tocar nos interruptores quando entra em um cômodo, esquecendo que esse gesto não adianta, depois tenta ver se foi só na sua casa, ou se foi no prédio, ou no bairro, dependendo do tamanho, você avalia a seriedade do assunto.

Ao descobrir que o apagão foi no bairro você já sabe o protocolo, já viveu isso antes: a empresa virá consertar em algumas horas e ficaremos sem bateria ou sem tv, talvez sem banho quente essa noite. No entanto, se descobrisse que o apagão é no mundo todo, sua avaliação mudaria? Suas atitudes mudariam? De uma simples falta de energia no bairro, você passa para um blackout mundial.

A dimensão importa.

É difícil para nosso cérebro ter noção do macro cenário.

Números muito grandes nos confundem e precisamos redimensionar para algo que a gente dê conta, então esteja mais atento a si mesmo, seus comportamentos e reações dentro desse cenário, observe todas as suas peles.

Hoje, depois de dois meses completos em isolamento, podemos fazer melhores reflexões do que na primeira semana, aos poucos as coisas ganham mais forma. Refletir sobre suas peles pode lhes ajudar no exercício de empatia com seu público e assim você pode ter mais clareza para pensar na relação da sua marca ou serviço com as pessoas neste momento.

Lembre-se, ainda está escuro, estamos à flor da pele, mas esse estado não é só instável e inseguro, é também passageiro.

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