“A arte e a abstração têm sua própria maneira de provocar as pessoas, isso vai além do meu controle sobre a criação”, diz o designer

 

Em tempos de confusão e incertezas sobre o futuro das semanas de moda e a incógnita do que o See Now, Buy Now representará para a criatividade no meio fashion, passarelas como as da Amsterdam Fashion Week continuam se destacando pelo olhar contemporâneo dos seus designers, sem compromisso com as tendências.

Independentemente do que o futuro nos reserva, ainda é em espaços assim que jovens criadores encontram solo fértil para o seu desenvolvimento, como o caso do designer hispano-holandês Jef Montes, que desfila suas coleções por lá há quatro anos e agora se prepara para a estreia em Paris no ano que vem.

O designer já é reconhecido pela atenção às formas esculturais que propõe para o corpo feminino e pelas transformações de materiais não-convencionais nos desfiles. Para ele, a apresentação das coleções também é o momento de acrescentar o elemento-chave para a sua compreensão, como em Illuminosa, de 2014, que as modelos tingiam suas roupas com tinta azul na passarela, “numa alusão à água benta que unge a figura da Virgem Maria”, explica ele ao #ModaInfo, enquanto outras vestiam trajes de fibra de vidro que refletiam a luz como se fossem água.

Em sua última criação, Tormenta, neste ano, os mesmos tecidos hidrossolúveis desenvolvidos pelo designer na coleção anterior, Resolver, de 2015, foram corrompidos por água numa intensa performance artística que convidou o público a conhecer seu processo criativo, ganhando capas de publicações da mídia especializada e também muitas críticas sobre a sua “persona atormentada”.   “A arte e a abstração tem sua própria maneira de provocar as pessoas, isso vai além do meu controle sobre a criação”, acredita.

As referências históricas e tecnológicas que permeiam seu arsenal criativo são, no entanto, equilibradas pela nostalgia das memórias afetivas do designer com seus avós espanhóis, fio condutor entre as passagens que cada coleção representa na sua evolução artística, como Velero, de 2015, que resgata a relação de fascínio do seu avô, marinheiro, com o mar, elemento recorrente no trabalho de Jef.

Avesso à imposição da novidade estação após estação, o designer prioriza o amadurecimento do seu traço criador como ferramenta de autoconhecimento, motivo pelo qual a sensação de continuidade é tão presente nas suas coleções. “Vejo que as criações passadas foram um meio para a concepção desta última, Tormenta, a qual considero minha primeira coleção realmente. Para mim, é muito importante encontrar o que me faz único como designer”, conta.

A mensagem de Jeff em Tormenta não é a do sentimento de aflição causado por uma tempestade, mas de apoteose. É a abundância da água, elemento tão simbólico em seu traço criador, em relação ao próprio tecido. Dá uma olhada no processo documentado em vídeo:

 

Confira a entrevista cedida por ele ao #ModaInfo na íntegra:

Velero

Illuminosa

Não há muitas informações sobre você na internet, mas considerando o seu nome e os temas das coleções, dá pra dizer que você ou sua família são espanhóis ou latinos. É isso mesmo?
Sim, minha família é espanhola de Andaluzia, sou hispano-holandês. Nasci em Arnhem (Holanda) e me graduei em design de moda na Academia de Artes de Arnhem em 2012.

Como foi a decisão de adotar a língua espanhola como expressão das suas criações?
Na época da faculdade, eu comecei a explorar a incorporação de sentimentos pessoais ao meu trabalho e percebi que a língua espanhola enfatizava a minha assinatura, além de ressaltar a minha história. Meu projeto de conclusão de curso foi uma homenagem à minha avó, Dolores, por exemplo, em que combinei elementos artísticos do pintor espanhol Velásquez à arquitetura gótica espanhola.

Como surgem os nomes para as coleções?
A cada estação eu busco uma palavra-chave que defina o conceito nuclear do meu trabalho. A Velero, por exemplo, foi assim batizada por conta do fascínio que o meu avô tinha por barcos à vela, ponto de partida da minha inspiração. Minhas criações possuem um carácter nostálgico mas, ao mesmo tempo, moderno por causa da utilização de materiais não-convencionais.

Quando e por que você começou a desenvolver novos tecidos?
Comecei a pesquisar sobre materiais inteligentes no primeiro ano da faculdade, pois já era fascinado por materiais com funções especiais. É muito importante para mim continuar experimentando novas fibras e técnicas, elementos-chave do caráter escultórico do meu trabalho.
Quando algo estrutural não funciona, eu destruo os materiais com produtos químicos. Foi assim que cheguei aos materiais de fusão. A transformação dos materiais está muito presente no meu trabalho, ela pode acontecer em hologramas de luz e até na arte performática.

Como na Resolver?
Sim, enquanto eu desenvolvia materiais solúveis em água para a Velero, no ano passado, fiz alguns testes envolvendo fibras de fusão. Naquela época, a Suzy Menkes publicou um artigo sobre o porquê do sistema da moda estar falindo e eu incorporei sua declaração a minha performance.
Na Resolver, me sentia incapaz de acompanhar a velocidade do fast fashion como designer, então destruí minhas peças antigas para transformá-las em outras possibilidades. Na passarela, as modelos vestiam trajes que se desvaneciam em água até mostrarem seus corpos nus, que representavam um novo começo.
Foi preciso destruir algo que eu amava para criar o novo, o que me inspirou a fazer Tormenta posteriormente.

Qual é o nome do tecido que se dissolve em água?
Trata-se de um material que eu desenvolvi, feito de álcool polivinílico e algodão. Quando molhado, o álcool polivinílico desaparece e a trama de algodão permanece como uma teia.

Velero

Velero

Qual é a influência da água em suas criações?
A água tem me fascinado por toda a minha vida. Eu gosto de como ela se move, reflete e absorve a luz.
Meu avô costumava me contar histórias de quando ele trabalhava num pesqueiro ao sul da Espanha, a água representou uma grande parte da vida dele e suas histórias eram muito inspiradoras para mim.
Eu incorporei essas memórias na Velero, para a qual desenvolvi os materiais hidrossolúveis inspirado nas formas dos barcos à vela.
Já no meu desfile de estréia na Amsterdam Fashion Week, Illuminosa, eu usei tinta como água benta para retratar a imagem da Virgem Maria.

Por onde você começa a materializar uma coleção? É pela estrutura da forma ou o conceito vem em primeiro lugar?
Eu visualizo o conceito primeiro para depois trabalhar com a criação de formas e materiais, preciso ter a história e as imagens na minha cabeça. A cada coleção, trago mais elementos sobre o meu desenvolvimento como designer e a minha identidade. É muito importante para mim encontrar o que me faz único como designer e ter uma forte assinatura pessoal.

O que você descobriu em Resolver que te atormentou, afinal?
Nada me atormentava depois de Resolver (risos). Tormenta é a conclusão de todos os projetos anteriores que eu fiz.
Durante o preview da Amsterdam Fashion Week, em julho, eu abri o processo criativo da Tormenta para o público. Nela, o conceito de tempestade veio à tona enquanto eu jogava tinta preta nos tecidos, como um artista atormentado, além da criação de tempestades no corpo feminino, que eu uso como uma escultura e em torno do qual as fibras derretiam.
A imprensa falou de mim como um ”artista atormentado”, o que eu achei irônico, já que estava apenas incorporando o conceito de minha coleção. Acho interessante a forma como as pessoas reagem ao meu trabalho, para mim, todos os comentários são úteis. A arte e a abstração tem sua própria maneira de provocar as pessoas, isso vai além do meu controle sobre a criação.

Você aprecia o trabalho de algum designer brasileiro?
Eu não conheço muito o trabalho dos brasileiros, mas eu amo o povo e a cultura. Tenho amigos brasileiros muito queridos e adoro a culinária brasileira, principalmente coxinhas! 😉
Adoraria visitar o Brasil no futuro e talvez conhecer outros designers/ artistas para desenvolver trabalhos colaborativos.

Onde você vende suas criações?
Quando eu me graduei, tentei fazer uma coleção comercial e senti que este não foi um bom começo. Desde então estou focado participar de exposições internacionais e na criação de novos materiais. Primeiro, quero que a minha assinatura seja reconhecida para, depois, pensar em uma linha comercial. Até agora vendo tudo exclusivamente em museus, mas pretendo desenvolvê-lo em maior escala no futuro.

Fale sobre esse processo.
Minhas criações anteriores foram, na verdade, passos de pesquisa para eu chegar na Tormenta, que sinto ser minha primeira coleção. Depois de quatro anos de pesquisa e experimentação, estou pronto para atravessar as fronteiras e me apresentar na Paris Fashion Week.

O que vem a seguir para PFW?
Eu levarei Tormenta para um novo capítulo. Estou pensando em introduzir peças comerciais que eu gostaria de vender a compradores exclusivos, mas tudo depende do que vai acontecer após a minha estreia! Estou em contato com agentes para apresentar minha coleção em seus showrooms e também estou pensando em apresentar minha próxima coleção na London Fashion Week. Eu amo Londres e sua cena artística, creio que encontrarei boas oportunidades de crescimento por lá.

resolver

Resolver

 

Fotos: Team Peter Stigter

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