Narrativas afro-atlânticas irão permear todas as mostras de 2018

 

Ano que vem, a assinatura da Leia Áurea, que aboliu oficialmente a escravidão no Brasil, completa 130 anos e a sua celebração motivou o MASP (Museu de Arte de São Paulo) a desenvolver toda a programação de 2018 em torno das histórias e narrativas afro-atlânticas, com mostras sobre artistas como Aleijadinho, Sonia Gomes, Melwin Edwards, Maria Auxiliadora da Silva, Rubem Valentim e Lucia Laguna.

A temporada sobre histórias afro-atlânticas dá continuidade ao projeto curatorial do museu de divulgar perspectivas plurais de forma mais ampla, como as anteriores História da loucura e Histórias feministas (2015), Histórias da infância (2016) e Histórias da sexualidade (2017).

Para além do registro do processo de escravidão no nosso país, que foi o último a aboli-la oficialmente e recebeu cerca 40% do total de africanos que deixaram seu continente à força, as narrativas resgatadas nas mostras pretendem expor as trocas bilaterais – culturais, simbólicas e artísticas entre os povos desde o século 16.

Ainda haverá uma mostra coletiva sobre o tema em parceria com o Instituto Tomie Ohtake em junho. Confira a programação:

 

Aleijadinho (título a confirmar)

Março a junho de 2018

A exposição de Antônio Francisco Lisboa, conhecido como Aleijadinho (Vila Rica, atual Ouro Preto, Minas Gerais, 1738 – 1814) pretende reunir, de maneira inédita, uma grande apresentação da obra desse artista negro, considerado um dos principais expoentes do barroco brasileiro. A mostra conta com empréstimos de alguns museus e congregações religiosas, que, além de esculturas devocionais, inclui também trabalhos de outros artistas que retratam a formação do mito Aleijadinho ao longo dos séculos 19 e 20. A exposição lança um olhar renovado sobre a produção desse artista, ao incluí-la no contexto das histórias afro-atlânticas, relacionando-a com temas como raça e escravidão no Brasil.

Curadoria: Rodrigo Moura

 

Maria Auxiliadora da Silva (título a confirmar)

Março a junho de 2018

A exposição sobre a artista Maria Auxiliadora da Silva (Campo Belo, Minas Gerais, 1935 – São Paulo, 1974) reúne cerca de 70 pinturas, apresentadas sob diferentes agrupamentos, como “vida cotidiana”, candomblé/umbanda/orixás”, “manifestações populares”, “auto-retratos” e outros. Maria Auxiliadora da Silva foi uma artista autodidata afro-brasileira. Começou a desenhar com carvão ainda na adolescência, depois passando para a pintura a óleo, que praticou até o final da vida. A artista desenvolveu uma técnica própria, baseada na mistura de massa de poliéster com o próprio cabelo, dando assim origem a volumes e texturas em suas telas. A exposição de Maria Auxiliadora se insere no contexto do programa de revisão da produção de alguns artistas que, por diversos motivos, não tiveram suas obras incluídas nas narrativas hegemônicas da arte brasileira.

Curadoria: Adriano Pedrosa e Fernando Oliva

 

Emanoel Araújo (título a confirmar)

Abril a julho de 2018

Nome fundamental do cenário artístico brasileiro, o curador e artista Emanoel Araújo (Santo Amaro, Bahia, 1940) iniciou sua produção em arte na década de 1960. Sua obra, fundamentalmente escultórica, é caracterizada pelo construtivismo geométrico e pela influência de temáticas afro-brasileiras. A exposição de Emanuel Araújo dá ênfase aos trabalhos que lidam com as simbologias das religiões afro-brasileiras, como as diversas esculturas que representam orixás do candomblé, e com obras que tematizam as relações afro-atlânticas, presentes em sua série de navios negreiros.

Curadoria: Tomás Toledo

 

Histórias afro-atlânticas

Junho a outubro de 2018

O Museu de Arte de São Paulo e o Instituto Tomie Ohtake organizam, em conjunto, a exposição “Histórias afro-atlânticas”, que reúne uma ampla seleção de obras de arte e documentos relacionados aos “fluxos e refluxos” (usando a famosa expressão de Pierre Verger) entre a África, as Américas, o Caribe e também a Europa. Contemplando trabalhos do século 16 ao 21, a mostra inclui uma variedade de temas que organizam seus diversos núcleos, alguns dos quais estavam presentes em “Histórias mestiças”, exposição com curadoria de Adriano Pedrosa e Lilia Schwarcz apresentada no Instituto Tomie Ohtake, em 2014: retratos, vida cotidiana, viagens e tráfico, punições e revoltas, festas e religiões, liberdades e abolições, ativismos, abstrações e modernismo africano.Dois seminários foram realizados no MASP sobre o assunto, o primeiro em 28 e 29 de outubro de 2016, o segundo em 21 e 22 de outubro de 2017, reunindo especialistas em vários domínios e temas, como história da arte, sociologia, história e antropologia. Um terceiro seminário acontecerá no Instituto Tomie Ohtake durante a exposição.

Curadoria: Adriano Pedrosa, Ayrson Heráclito, Hélio Menezes, Lilia Schwarcz e Tomás Toledo

 

Melvin Edwards (título a confirmar)

Agosto a novembro de 2018

A exposição de Melvin Edwards (Houston, Texas, Estados Unidos, 1937) vai reunir obras de sua célebre série Lynch Fragments, produzida desde os anos 1960 até hoje. Nessas esculturas de parede, o artista reúne diversos objetos em metal, como correntes e ferramentas de trabalho, para lidar com questões como raça, violência, trabalho e escravidão, especificamente no contexto da diáspora africana. Esta será uma importante mostra em profundidade do artista, considerado uma das principais referências entre artistas afro-americanos em atividade.

Curadoria: Rodrigo Moura

 

Rubem Valentim (título a confirmar)

Agosto a novembro de 2018

A exposição em torno da obra de Rubem Valentim (Salvador, 1922 – São Paulo, 1991) reúne cerca de 60 trabalhos com o propósito de rever a produção desse fundamental artista brasileiro do século 20, responsável por promover potentes articulações entre os elementos da tradição ocidental e as raízes africanas da cultura brasileira. Pintor, escultor e gravador, Rubem Valentim cresceu em contato íntimo com a religiosidade sincrética afro-brasileira: sua família era católica, mas o artista também frequentava terreiros de candomblé. Já adulto, Valentim relataria seu deslumbramento tanto com os ritos afro-brasileiros quanto com a imaginária das igrejas cristãs, especialmente os santos barrocos.Nas obras de Valentim há uma interpenetração muito sutil e precisa entre a estrutura de base construtiva e a iconografia e o colorido herdados do universo mágico e religioso afro-brasileiro. Nesse sentido, podemos dizer que Valentim é um dos artistas que, de maneira mais completa e ambiciosa, realizou o desejo antropofágico da cultura brasileira – a ideia, lançada pelo poeta Oswald de Andrade no final dos anos 1920, que propunha “deglutir” o legado cultural europeu, “digeri-lo” e então devolvê-lo ao mundo sob a forma de uma arte tipicamente brasileira.

Curadoria: Adriano Pedrosa e Fernando Oliva

 

Sônia Gomes (título a confirmar)

Novembro de 2018 a fevereiro de 2019

As esculturas e instalações de Sônia Gomes (Caetanópolis, Minas Gerais, 1948) são feitas a partir de materiais residuais, principalmente têxteis e outros objetos diversos. Ela constrói estruturas envolvidas ou inteiramente construídas de tecidos, muitas vezes antigos, e originários do acervo familiar. Caetanópolis, cidade natal de Gomes, é importante centro de manufatura têxtil e a infância da artista foi marcada pelo universo da costura e do bordado. Sua produção visual remete a práticas artesanais brasileiras: as amarrações, nós, patuás, trouxas e tramas que compõem o trabalho lembram detalhes de vestimentas que encontramos em festas populares, como a folia de reis e o congado – expressões culturais afro-brasileiras – mas também à tradição de bordadeiras e rendeiras de Minas Gerais, todos parte de sua formação artística.

Curadoria: Camila Bechelany

 

Pedro Figari (título a confirmar)

Novembro de 2018 a fevereiro de 2019

Pedro Figari (Montevidéu, Uruguai, 1861-1938), artista branco, é um dos grandes representantes do modernismo uruguaio, unindo, em sua pintura, um estilo muito particular de gestos, manchas e movimento, e um desejo de explorar uma América Latina autônoma, baseada em suas raízes históricas e étnicas. Neste sentido, Figari atuou durante grande parte de sua vida como advogado de destacada voz pública, defendendo temas ligados aos direitos humanos, à educação e à arte. Foi diretor da Escola de Artes e Ofícios em Montevidéu e ali defendeu a fusão entre indústria e arte com uma identidade latino-americana, visando fomentar “a mentalidade nacional com critérios próprios”. Aos 60 anos passa a se dedicar à pintura, retratando o passado do país, com cenas cotidianas, casamentos, bailes, paisagens e festas populares, sobretudo das comunidades afro-uruguaias. Destacam-se, em suas pinturas, representações do candombe, dança de origem afro-americana que se praticava em grupo – sendo que uma das mais significativas desse conjunto faz parte do acervo do MASP. O foco da exposição será o das narrativas afro-uruguaias: além das danças do candombe, estarão expostas representações de festas negras, cenas de trabalho, passeios, entre outros, retratando a expressiva presença dessa população em seu país.

Curadoria: Adriano Pedrosa e Mariana Leme

 

Lucia Laguna (título a confirmar)

Dezembro de 2018 a março de 2019

A paisagem é o ponto de partida das pinturas de Lucia Laguna (Campos dos Goytacazes, Rio de Janeiro, 1941). Da janela de seu ateliê no bairro São Francisco Xavier, no Rio de Janeiro, as telas de grandes proporções, com elementos da cidade, misturam-se a formas abstratas e representações de objetos do interior da casa da artista. A sobreposição de camadas e técnicas distintas de pintura é uma característica fundamental na produção de Laguna, revelando um processo lento e minucioso. A artista iniciou sua carreira de pintora após frequentar os cursos de pintura e história da arte na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, no Rio de Janeiro, nos anos 1990.

Curadoria: Isabella Rjeille

 

Imagem: obra de Maria Auxiliadora da Silva/ reprodução

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