Créme de la créme da moda ensaia apropriação do streetwear pelo luxo

 

Na era da sociedade conectada, o acesso da maioria ao luxo e ao glamour acontece por meio do consumo das imagens. Não por acaso, os desfiles de moda estão cada vez mais direcionados para a midiatização instantânea das lives dos smartphones do que para os próprios olhos do público. Quanto mais engajamento em torno de uma marca, melhor para ela.

Curiosamente, o que mais nos chamou a atenção semana passada na temporada de outono/inverno da Alta Costura, ícone da divisão de castas do mundo ocidental e principal produtora de looks suntuosos de celebridades para o red carpet, foi uma replicação das principais correntes estéticas à venda no prét-à porter comercial, como o streetwear, por exemplo, ostentado nas passarelas da Vetements e da Acne Studios, cuja aparência despretenciosa não entrega o valor altíssimo da etiqueta.

Vetements e Acne Studios, streetwear de luxo

Uma vez que essas marcas são amplamente utilizadas em produções de estrelas do meio pop e hip-hop, como Rihanna, Justin Bieber e Kayne West, além de celebridades de internet, como a família Kardashian, fica fácil entender onde está a realeza dos tempos atuais – e o novo séquito que paga até quatro dígitos numa t-shirt podrinha pelo outfit – que a Alta Costura deseja atrair para si.

Além disso, as esperadas  coleções exuberantes de casas como Giambasttista Valli e Valentino, com riqueza de detalhes e elaboradas construções de volume, dividiram espaço com looks com composições austeras, como as desfiladas pela Chanel e Dior, duas das mais tradicionais maisons do Triangle D’Or, que nessa temporada releram seus clássicos no maior estilo low profile em fashion shows tímidos, que não empolgaram, tampouco lembram os espetáculos de outrora.

Valentino, Chanel e Dior: homenagem ao passado das marcas na passarela

Nesse cenário peculiar, chama a atenção o desfile da Margiela, que sob comando do polêmico John Galiano, misturou materiais high-tech, como óculos de realidade virtual, a outros baratos, como plástico, nylon, velcro e papelão, na criação de looks futuristas que muito lembravam o icônico desfile Clochard, de 2000, que o estilista comandou para a Dior, inspirado nos mendigos.

Sob o pretexto de explorar o nomadismo digital que horizontaliza e estreita as relações entre povos de todo o mundo, Galiano conseguiu inovar dentro do mesmo tema da maioria dos outros criadores, decodificando a gambiarra do high street para a mais intrigante casa de Alta Costura da temporada.

O estilista inclusive gravou seu processo criativo em depoimento por áudio, publicado pela marca no iTunes uma sacada genial que reverbera o movimento de aproximação da Alta Costura com a moda de rua. Confira o desfile da Margiela na íntegra:

 

 

Imagens: Fashionsnoops

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