Pessoas, planeta e propósito são palavras-chave da temporada, pautada pela sustentabilidade

Quem é o nosso público e como a gente cria pra ele? Essas duas perguntas nortearam o talk da coolhunter Andrea Bisker sobre macrotendências estéticas no Senac Moda Informação 2.18, que reuniu mais de 120 pessoas no Mundo Pensante, no Bixiga, semana passada.

Andrea Bisker no Senac Moda Informação 2.18

Andrea Bisker no Senac Moda Informação 2.18

“Não podemos pensar nas tendências de moda como as roupas que estão nas vitrines, mas sim como gatilhos de comportamento”, provoca Andrea sobre a nossa capacidade de perceber no outro suas motivações, angústias e desejos.

A especialista, que trouxe a WGSN para o Brasil em 2004 e agora representa a Stylus, gosta de comparar a moda com um alimento para a sociedade, vital e perecível, e avalia que, no cenário polarizado em que vivemos, a ambiguidade e incertezas no mercado tendem a aumentar.

“Costumo dizer que o mundo de hoje é volátil, deixamos a modernidade líquida do (Zygmunt) Bauman para trás”, acredita. De fato, o volume, a rapidez e a complexidade das informações que temos à mão cresceram tanto que está cada vez mais complicado para uma marca editar o próprio repertório para construir conteúdo relevante, seja na oferta dos produtos de moda ou na comunicação que deseja estabelecer com as pessoas.

Nesse sentido, a especialista direcionou o filtro dos participantes do #ModaInfo para os eixos pessoas, planeta e propósito que, segundo ela, quando alinhados orientam assertivamente as respostas das marcas frente às tendências de comportamento da vez. “Para se trabalhar com moda, é preciso ter empatia, saber o que move as pessoas”, aconselha.

Assim, Andrea propôs três macrotendências de comportamento que vêm reestruturando o meio fashion há um tempo e não têm previsão de moda, são elas:

1. Recarregar

“A vida cotidiana tem sobrecarregado o ser humano que, cada vez mais estressado, ou opta pela adrenalina, ou pela desconexão total para lidar com o stress”. explica a especialista, que relê a onda do activewear e do athleisure, sua versão mais social, como uma resposta da moda pelo desejo de bem-estar físico e espiritual das pessoas.

Ainda falamos muito sobre o F.O.M.O. (fear of missing out, do inglês “medo de ficar por fora”), mas tenho observado cada vez mais pessoas se desapegarem disso e já vejo gente brincando com um termo que contesta essa necessidade, o J.O.M.O. (joy of missing out, do “inglês alegria de estar por fora”).

O interessante aqui é que a busca pelo equilíbrio pode vir tanto em experiências extremas, como a inclusão de esportes radicais como o surf e a escalada nos jogos olímpicos sugere, quanto na prática de meditação e popularização de técnicas de mindfulness, por exemplo.

Apesar de o desenvolvimento tecnológico na indústria da moda esportiva e sua adequação ao cotidiano serem muito importantes aqui, Andrea chama a atenção para a conexão com o propósito. “Para esse cliente, a experiência com a sua marca diz mais do que a posse do seu produto. Essa pessoa quer ser surpreendida!”, revela Andrea.

Veja o exemplo da Cliffside Shop, que instalou uma loja no topo e uma montanha para se conectar com o seu público durante a prática da escalada:

2. Reaproveitar

Apesar de a preocupação com a sustentabilidade ecoar cada vez mais alto no meio da moda, suas estimativas de consumo de recursos naturais e descarte de insumos em escala global ainda são alarmantes.

O Copenhagen Fashion Summit, um dos maiores eventos sobre sustentabilidade no meio, publicou em seu report que, apenas em 2015, o meio fashion consumiu quase 80 bilhões de metros cúbicos de água doce, emitiu mais de um milhão de toneladas de CO2 e produziu 92 milhões de toneladas de resíduos no mundo todo.

“É preciso pensar nas sobras de coleções como um ativo de criação, uma mina de ouro em termos de possibilidades para a sua marca”, esclarece Andrea.

A especialista revela que o movimento do reaproveitamento não se limita ao mercado de moda, é transversal na sociedade e tem movimentado principalmente o mercado de segunda-mão entre os usuários em plataformas como o Depop, o Tradeup e o Enjoei, que também marcou presença no #ModaInfo 2.18 na resenha sobre novos modelos de negócios.

De olho nessa macrotendência, algumas marcas já abrem etapas do seu processo produtivo e recebem de volta as roupas que os clientes não querem mais como parte do pagamento por novas aquisições na loja, como no caso da marca espoertiva sustentável Patagonia Clothing, que repara as roupas recebidas e documenta as ações em vídeos:

3. Reviver

Sobre o eterno namoro da moda com o vintage e a redescoberta das tradições e artes artesanais de povos antigos por meio do resgate da ancestralidade, Andrea aponta a necessidade de ressignificar nosso entendimento sobre o passado, “hoje em dia não se tem mais fixação em apenas uma década, a geração Z quer tudo ao mesmo tempo agora”, explica.

A tendência, também chamada pela especialista de omninostalgia, cai como uma luva para a geração que mais em acesso à informação na história da humanidade e, por isso mesmo, flerta com ela reafirmando seu propósito no mundo. “A tecnologia entra em cena e recria o antigo de maneiras progressivamente novas”, conclui.

Como inspiração, podemos destacar tanto o trabalho do Alessandro Michele na recriação da estética vintage que transformou a Gucci num fenômeno de vendas, quanto marcas que valorizam a cultura local com o olhar apurado para o design, como o artesão e designer Gustavo Silvestre, que participou do talk sobre tradução de tendências no evento, e a Catarina Mina:

Confira nosso ping-pong com a Andrea:

Macrotendências por Andrea Bisker | Moda Info 2.18

Publicado por Senac Moda Informação em Sexta, 9 de novembro de 2018

Imagens: Soul Art Fotografia

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