Beyoncé e Jay-Z são as obras de arte para se apreciar em videoclipe

 

Há mais de 20 anos emplacando hits na indústria cultural, Beyoncé e Jay-Z não cansam de se gabar de seus feitos em suas canções, ostentando posses, prêmios e o lifestyle monárquico à altura da sua fortuna conjunta, avaliada em mais de US$1,16 bilhões pela Forbes.

Mas, dessa vez, os Carters fizeram a façanha de ressignificar a palavra ostentação dentro da própria obra, estendendo-a ao ápice da auto-consagração como obras de arte vivas no Museu do Louvre nas cenas do clipe Apeshit, música de estreia do mais novo trabalho dos dois, Everything is Love.

A escolha do Louvre é, por si só, fonte inesgotável de especulações. Residência fixa de algumas das obras de arte mais populares de todos os tempos, como a Mona Lisa, coadjuvante do clipe, o ex-palácio é também um dos maiores acervos de referência estética eurocêntrica, enquanto retém o espólio apropriado de outras nações pela França no período colonial.

Anjo caído no início do clipe.

Assim, finalmente ocupar esse espaço com artistas negros é um ato de revolução. Se antes, os mecenas das artes eram brancos, ricos e estudados, hoje, assistimos à ascensão negra na produção cultural contemporânea. “Não acredito que chegamos aqui/ É por isso que agradecemos”, diz a letra.

“Não por acaso, a dupla entra em cena de costas para a Mona Lisa, após a queda de um anjo negro, uma menção ao filme Asas do Desejo (1987), de Win Wenders, que faz a passagem entre o divino e o terreno, o sagrado e o profano, lugares das artes no nosso imaginário”, analisa a semioticista Jô Souza,  professora de moda do Senac Lapa Faustolo.

Os powersuits adotados pela dupla, ela vestindo Peter Pilotto e ele, Dries Van Noten, reforçam sua parceria na música e na vida. É o ponto de partida para a performance artística no cartão postal da cidade luz.

Diamantes, rosa pink e cabeleira loira: uma menção à Marilyn Monroe?

Na sequência, os Carters aparecem no topo da escadaria em que se encontra a Vitória de Samotrácia (190 a.C), uma reprodução sem cabeça e braços da deusa grega, trajados de roupas alvas como o mármore, recorrendo ao vestido branco de alta-costura Stephane Rolland e uma capa escultórica de Alexis Mabille, enquanto as bailarinas parecem despertar para a celebração da glória do casal. “A coreografia me lembra o trabalho da artista Vanessa Beercroft, que fala essencialmente sobre a figura feminina”, avalia Jô.

Vitoria da Samotrácia

Look de alta costura de Stephane Rolland e Alexis Mabille esculpido no corpo de Beyoncé: as estátuas que ganham vida.

Ao mimetizarem o gestual e o figurino das obras de arte enquanto percorrem os ambientes mais famosos do museu, Beyoncé e Jay-Z subvertem a ausência de figuras negras em ato de performance, vertente artística ligado ao presente, em sobreposição às obras estáticas do passado, que reforçam a exaltação da branquitude, como a projeção do corpo da artista na mesma pose da Vênus de Milo (130 a 100 a.C.).

Dançarinas mimetizam estátua da deusa Vitória de Samotrácia

Em outra cena impressionante, Beyoncé veste um conjunto da Burberry enquanto suas dançarinas usam looks da cor da pele para dançar em frente ao quadro da Coroação de Napoleão (1804), de Jean-Louis David, que retrata o momento em que o general francês se consagrou imperador após trazer sucessivas vitórias para o povo. Mais uma vez, quaisquer semelhanças não são mera coincidência por aqui, “a história se repete sempre”, reflete Jô.

Coroação de Napoleão e celebração da “rainha” Beyoncé

É interessante observar como os dançarinos de ambos se articulam dentro e fora do museu. Enquanto lá dentro eles fazem parte da performance, envoltos na aura do divino, do lado de fora eles experimentam a guerra e o amor, dando ao negro o lugar de protagonista que lhe foi negado pela arte europeia.

Não poderíamos deixar de falar sobre a figura de Jay-Z dentro e fora da tela. Ao lado de Beyoncé no clipe, dando seu aval ao action da amada na maior parte das cenas, o magnata da música americana é tido como um dos artistas mais bem sucedidos dos anos 2.000 e reza a lenda que ele seria um membro dos Iluminati, uma fraternidade secreta que conspira por uma nova ordem mundial.

JayZ Louvre

Jay-Z, em frente à pirâmide do Louvre.: insuflando a teoria da conspiração

A boataria, criticada anteriormente em Formation, de Beyoncé, grita nas cenas provocativas do rapper em frente à pirâmide do Louvre, um ícone de misticismo ligada aos Iluminati pelos entusiastas da teoria da conspiração, como o escritor Dan Brown, autor de Código Da Vinci.

Numa das cenas finais, outra correlação com a realidade. Temos o casting masculino ao lado de fora do museu de joelhos, evocando o mesmo gesto realizado por jogadores de futebol americano durante a execução do hino nacional, um protesto contra o racismo repreendido abertamente pelo presidente Donald Trump e copiado por outros esportistas na sequência.

Crítica aberta ao governo Trump e apoio aos movimentos antirracistas

É claro que toda essa demonstração do poder de fogo da dupla ainda reproduz a ideia de nobreza, extinta na França no século XVIII pelos ideais iluministas de igualdade, fraternidade e liberdade, mas cujo sistema de divisão social em hierarquias teima em permanecer nas diversas nuances da democracia.

Não poderíamos deixar de ressaltar que o discurso de ocupação negra do espaço reservado para a hegemonia branca na arte também se sustenta pela escolha dos figurinos, a maioria de maisons consagradas no circuito tradicional da moda, como Balmain e Versace. “Nós vivemos na ostentação, ostentação/ Eu tenho tecidos caros, tenho hábitos caros”, diz a letra.

A verticalidade da mensagem não diminui, contudo, o apelo dos Carters sobre a importância de vida e obra de artistas negros, expoentes de uma população perseguida pelo racismo secular. “Essa carne se recusa a continuar sendo a mais barata do mercado, reconhece seu valor e está aprendendo a cobrá-lo”, finaliza Jô.

Mona Lisa, criada por Da Vinci na proporção ideal de beleza, atrás do casal negro penteando o cabelo.

 

Sobe o som pra dançar muito assistindo ao clipe:

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