Estilista faz análise sobre os desafios do mercado brasileiro de moda para o #ModaInfo

Falar sobre Walter Rodrigues é falar sobre moda brasileira. O estilista iniciou seu caminho profissional como produtor da revista Manequim, em 1983, passando pela equipe de estilo da Cori até se tornar assistente da Clô Orozco (1950-2013). Em 1987, criou a marca Satori com sua sócia Áurea Yamashita, que cinco anos depois, se transformaria na icônica Walter Rodrigues.

Com a Walter Rodrigues, estreou na passarela do Phytoervas Fashion e se projetou como um dos protagonistas da moda brasileira, desfilando também em Paris, até encerrar as atividades em 2012, última temporada apresentada pela marca no São Paulo Fashion Week.

Flertando com o art decó e o japonismo em suas criações, Walter sempre chamou a atenção pelo rigor em suas pesquisas de coleção, característica que o levou a desenvolver os estudos para o Fórum Inspiramais, o qual coordena desde 2004, viajando de norte a sul para realizar consultorias para a indústria têxtil e de moda.

Conhecedor do Brasil como poucos, defende que é da união do artesanal ao tecnológico que saem os projetos mais interessantes atualmente, motivo pelo qual acredita que o brasileiro está com a faca e o queijo na mão, mas ainda precisa aprender a cortar. “Nos falta conteúdo, ele é que gera encantamento”, acredita.

Após um talk sobre o futuro do segmento durante o Focus Design Visions, Walter falou ao #ModaInfo sobre os desafios do nosso mercado para os novos criadores de moda. Confira:

 

Fazer moda ainda é se reinventar a cada seis meses?

Ninguém mais se reinventa a cada seis meses. Hoje, a moda tem uma fluidez muito maior, que permite que uma persona se expresse através da roupa e evolua em seus comunicados por meio dela.

Por isso que acredito que o consumo do futuro será de nichos. Eu ainda uso roupas que comprei nos anos 1990, não entendo hoje o comprar só por comprar. Para valer a pena, o produto tem que estar em sinergia com o ser humano.

 

Nesse consumo de nichos há uma vontade de criar para menos pessoas, mas a maioria da indústria ainda se volta à macrotendência. Como o estudante de moda pode decodificar isso em seu trabalho?

Acho que absolutamente tudo está aí, na cara da gente. Walter Benjamim dizia que a moda tem o poder de nos levar para frente, se prestássemos mais atenção nela, saberíamos o que o futuro nos trará.

É interessante como as pessoas ainda dependem de que o outro diga o que se deve usar, priorizando a tendência sem levar em conta a própria trajetória, visão filosófica. A partir do momento em que valorizarmos a identidade, as marcas terão mais cuidado em criar coisas sem necessidade, imagens que não se transformam em nada e terão de voltar à pergunta fundamental: pra quem estou fazendo isso?

A partir disso, há a possibilidade de descobrir novos caminhos e fazer um trabalho que gere encantamento, pra mim o grande pepino, pois não adianta mais todo mundo ter acesso ao varejo se a oferta é a mesma.

 

Vejo a autoralidade ser muito defendida nos talks de moda, mas, na prática, os designers são colocados como copistas no mercado. Isso é paradoxal.

É, nós fizemos a apropriação a vida inteira. As adaptações que os compradores faziam das peças dos mercados estrangeiros para vender por aqui eram cópias. Acho que isso tá dentro da nossa genética, porque exportávamos pau-brasil ao invés de móveis, açúcar ao invés de doces, couros ao invés de roupas, somos um país de commodities.

 

Como mudar essa mentalidade?

Temos a característica do fazer à mão, a mistura de povos e matéria-prima em abundância. Falta originalidade, falta conteúdo, porque só vou fazer depois que o outro fizer. Não vou investir na minha própria capacitação, no meu storytelling, vou sempre copiar o do outro.

Precisa mudar na escola, com o apoio do governo. A próxima geração deverá levar em frente essas causas.

 

O que poderia ser feito para viabilizar o desenvolvimento do mercado nesse novo momento?

Nos anos 2000, tivemos muito incentivo do governo, mas não soubemos aproveitar. A indústria não pegou o embalo, ficou na dependência de receber verbas pra fazer acontecer.

Atualmente, acho o cenário assustador, tenho uma desilusão tão grande com política. Primeiro, porque nunca fomos tratados com respeito, mas também não nos damos o respeito. O problema é a Lei de Gerson, queremos vantagem em cima de tudo.

Se você fizer um levantamento da indústria da moda do Brasil, verá que estamos em segundo lugar na geração de emprego, mas sabemos que em cada fundo de quintal há uma oficina que não paga impostos. Como vamos cobrar do governo brasileiro uma atitude, mostrar que somos uma indústria economicamente viável, que devemos ser respeitados?

 

Qual a dica para os novos estilistas?
Coragem. Coragem para ir contra todo o sistema, quem é novo tem que trazer a novidade. Não adianta sair da universidade fazendo a mesma coisa que as pessoas fazem. É preciso investir em si mesmo, perguntar-se o que o mundo ainda não tem, em qual processo você pode ser autêntico e criar uma marca que outras pessoas vão precisar depois.

Foto: Divulgação

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