Há 30 anos improvisando com trajes masculinos, seleção feminina de futebol tem agora um uniforme sob medida para chamar de seu

Também conhecido como país do futebol, o Brasil carrega consigo um passado problemático na compreensão desse esporte como expressão cultural. Isso porque, entre os anos de 1941 a 1983, vigorou por aqui uma lei que proibia a formação de times femininos por um entendimento de que essa “prática ia contra a natureza das mulheres”.

Sim, enquanto o país despontava mundialmente como expoente do futebol-arte, conquistando seus três primeiros títulos, mulheres dentro de campo eram vistas como criminosas perante a lei, o que explica o histórico misógino do meio e a consequente disparidade de investimento entre as categorias femininas e masculinas até os dias atuais.

“Não é por acaso que a maioria das mulheres que nós conhecemos nunca nem sonhou em jogar futebol, isso era ‘coisa de menino’. Só que é inaceitável que o país do futebol não inclua mulheres”, criticou Martina Valle, diretora da Nike do Brasil, no início da sua fala à imprensa sobre a apresentação inédita de uniformes feitos sob medida para a seleção feminina.

Às mulheres não se permitirá a prática de desportos incompatíveis com as condições de sua natureza, devendo, para este efeito, o Conselho Nacional de Desportos baixar as necessárias instruções às entidades desportivas do país.

Lei 3.199 de 14 de abril de 1941, derrubada apenas em 1983

O evento aconteceu ontem no Museu do Futebol e deu continuidade à estreia da campanha global da marca para o mundial na França, que apresentou suas criações para as 14 seleções por ela patrocinadas nesta edição do torneio.

Não é só futebol. É lugar de fala

Costurando esse feito à concretização do lugar de fala das atletas, uma reivindicação contemporânea dos movimentos feministas ao redor do globo que dialoga com o simbolismo de vestir a camisa, a Nike entrou em sintonia com a demanda de representatividade das suas consumidoras, uma tendência apontada pelo #ModaInfo 1.18.

De olho na expansão do segmento feminino no mercado esportivo, a empresa também anunciou a criação do Nike Futebol Clube, uma plataforma exclusiva para mulheres boleiras treinarem com segurança e supervisão profissional em São Paulo, e a primeira edição feminina do Nike Primier Cup, competição global voltada a atletas de base, no Brasil em maio.

A novidade foi anunciada pela atriz Letticia Munniz, idealizadora do Jogue como uma Garota Futebol Clube, que abriu os trabalhos com a Nike logo após o evento, no estádio do Pacaembu, num treino comandado pela ex-técnica da seleção Emily Lima, como mostra a foto em destaque.

Também participaram do evento as atletas Adriana Silva, confirmada nessa Copa do Mundo, Luiza Fontes, do Centro Olímpico e campeã da Libertadores Sub 14; e Juju Gol, primeira menina federada no Brasil a jogar com meninos em competições oficiais aos 7 anos de idade.

“Queria deixar o incentivo para vocês, meninas que sonham em ser jogadoras de futebol. Não desistam. O caminho é longo, mas vocês não fazem ideia de como é prazeroso chegar a um clube de alto nível, como eu cheguei”, disse Adriana.

Aos uniformes, então

Dá pra imaginar que, desde o primeiro torneio mundial, em 1986, nossas atletas precisavam colocar quase metade da camisa para dentro do shorts só para não sumir dentro do uniforme? Pois é, ainda que tardia, a atenção do trade esportivo à performance das atletas é indicador-chave do crescimento do consumo de artigos esportivos pelo público feminino, terreno mais explorado pela moda nos últimos anos.

“Começamos a desenvolver esse uniforme em 2015 e, dentre os principais pedidos das jogadoras, estavam o ajuste da modelagem da camisa e do short aos seus corpos, numa modelagem ‘sequinha’, mas que não marcasse muito”, explicou Martina.

Num segmento ainda intoxicado pelo histórico recente de exclusão, é fácil entender o porquê das jogadoras pedirem uniformes que não marquem suas curvas, ao contrário dos homens, que preferem trajes bem justos ao corpo.

Um dos destaques do design foi o espaçamento na trama do tecido nas regiões de maior transpiração, busto e costas, para garantir maior respirabilidade. O tecido dos uniformes oficiais é o Vaporknit, sintético à base de garrafa PET reciclada patenteado pela empresa.

“Curiosamente, as hachuras nas zonas de respiração compõem um desenho de fluxo na região torácica das camisetas a partir da meia gola V, destacada em verde, numa associação subjetiva ao sagrado feminino que reafirma a potência da mulher em campo”, arremata Nathalia Anjos, coordenadora do #ModaInfo.

 

5 estrelas?

As camisetas conservam as estrelas do pentacampeonato da seleção masculina, sob o argumento da CBF de que as conquistas de ambas as seleções pertencem ao Brasil. Contudo, ninguém da Nike soube nos explicar se a conquista da taça do torneio feminino significaria o hexa para o futebol brasileiro.

A ver…

 

Confira os detalhes dos uniformes na campanha oficial da marca:

Fotos: Divulgação/ Nike

Comentários

Comentários