Semana de moda chama a atenção para a compreensão da brasilidade nos tempos atuais

 

Já parou para pensar que o nosso entendimento sobre o clássico e o disruptivo partem sempre do que é proposto pelo mainstream? No caso da moda, falamos de um sistema forjado no seio da corte francesa do século 17 para distinguir a nobreza da plebe, cujas orientações ainda povoam nosso imaginário na leitura de imagens até os dias atuais.

Tendo em vista que a realidade dos trades de moda nos países que no passado serviram de colônia para as nações europeias é, por uma questão histórica, um registro estético da continuidade da influência cultural do velho mundo que mesmo após a globalização segue a determinar os afetos, as escolhas e os hits de cada temporada ano após ano, precisamos abrir um parêntese quando nos propomos a discutir inovação dentro da nossa bolha fashion: cair no argumento fácil da transgressão para nomear novas iniciativas nesse meio é uma das armadilhas mais comuns hoje em dia.

Isso porque é mais fácil taxar de inclusiva uma marca que estenda a sua gradação de modelagens para os corpos gordos e curvilíneos da maioria das mulheres brasileiras do que olhar para o restante que não o faz e questionar o porquê da limitação criativa na definição do público alvo.

O mesmo se aplica às marcas que dialogam com movimentos ditos de contracultura, como o empoderamento negro e a diversidade, por exemplo, ou mesmo às que se inspiram em faixas etárias avançadas. Quase sempre, o tom elogioso das resenhas e comentários na internet pende para o lado da emoção ou da exaltação da rebeldia. E não precisa ser assim.

É muito importante conhecermos a história, o desenvolvimento e a evolução das marcas de moda consagradas, porém é preciso ter em mente que replicar os parâmetros europeus sobre o nosso potencial criativo apenas perpetua nossa condição tímida de um povo carente de tradição, sem o lastro de grupos bilionários de luxo que investem na moda como cartão-postal da própria cultura.

No começo do ano, escrevemos um artigo sobre a dificuldade de descolonizar o pensamento, o qual, antes de mais nada, questionava os alicerces do senso comum sobre a criação de imagem de moda no Brasil, que ainda tratam de parâmetros excludentes de beleza e de acesso como gatilhos para o desejo no público.

Sabemos que a decolonialidade é uma macrotendência de comportamento que vem crescendo a cada nova temporada e, para que possamos de fato compreendê-la, precisamos ressignificar nossa compreensão sobre nossa própria cultura, baseada no remix de influências de tantas outras, é verdade, antes de prosseguirmos analisando mais lançamentos de moda.

Sob essa perspectiva antropofágica, apresentamos nossa seleção dos looks que compuseram as narrativas contemporâneas de moda na 45ª Casa de Criadores, que rolou até segunda-feira, 8, e serviu aos olhos mais atentos como um caldeirão repleto de referências sobre o que é brasilidade nos tempos atuais.

Seja pelo resgate da ancestralidade nas coleções de criativos como Issac Silva e Rober Dognani, que flertam com o sagrado do Egito antigo e de Nossa Senhora de Aparecida respectivamente em seus desfiles, ou na celebração das técnicas de upcycle e reúso de marcas como Ahlma, Re-roupa ou do Brechó Replay, que estendem a vida útil das roupas, mais uma vez, a semana manteve seu viés atual sobre a moda do nosso tempo.

O chamado da afetividade se fez presente nas apresentações de marcas como Heloísa Faria, Jorge Feitosa e Rafael Caetano, que seguem se inspirando no seu entendimento plural sobre o amor e, assim como Vicente Perrotta, ampliam seu discurso para a diversidade.

Vale dizer que a estreia da Rainha Nagô configurou também a estreia do evento no atendimento a marcas exclusivamente plus size, apesar de que corpos gordos marcaram presença na maioria dos desfiles, um ponto alto na aproximação dos designers com a realidade do nosso povo.

Outra estreia que também chamou a atenção foi a da Estileras, cujas criações já deram pinta por aí vestindo celebridades como Linn da Quebrada e Uriass. Conhecida pelo processo criativo pautado pela improvisação, a marca criou todos os looks desfilados horas antes de entrar na passarela, aos olhos do público, partindo sempre de uma roupa que já existe para tratar o vestir como um ato político – que rompe justamente com o lance que falamos sobre beleza e acesso em que o sistema da moda sempre se pautou.

E por falar em política, a esmagadora maioria de profissionais negros e LGBTQI+ nos bastidores e na passarela é sempre motivo de nos lembrar sobre a importância de descolonizar o raciocínio sobre criação de imagens de moda: exaltar nossas histórias por aí é o que nos torna únicos nesse mundo saturado das mesmas imagens de sempre.

 

Confira a seleção de looks da 45ª Casa de Criadores feita pelo #ModaInfo:

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