Herman Bessler, da Malha.cc

Herman Bessler, da Malha.cc

Herman Bessler é um dos principais nomes da economia colaborativa no Brasil. Fundador do Templo, maior espaço de coworking do Rio de Janeiro, ele seguiu apostando nos espaços compartilhados de trabalho e abriu ano passado a Malha, junto a André Carvalhal e Cris Carvalho, um galpão desenvolvido para integrar novos nomes da moda sustentável em São Cristóvão.

Formando uma espécie de coletivo, já que a disposição dos usuários para a troca de ideias é um requisito dos “ecossistemas profissionais” criados pela sua turma, Herman vai na contramão da lógica da competição em que o mercado capitalista, com destaque para o da moda, se desenvolveu e no qual todos nós crescemos, mas que já dá sinais claros de esgotamento.

Nesse cenário, Herman conta para o #ModaInfo de que forma as tendências ligadas à cibercultura, como o consumo consciente, comércio justo e o open source podem sustentar um modelo de negócio de moda. Ele é presença confirmada no Senac Moda Informação 2017 ed.1, que acontece em 28/3: https://goo.gl/1zAxhg

 

Galpão da Malha, em São Cristovão

Galpão da Malha, em São Cristovão

Quais experiências adquiridas em sua trajetória profissional te levaram a projetar a Malha?
Venho trabalhando com facilitação de grupos, processos colaborativos e cocriação desde 2005. Primeiro, com grupos de jovens em comunidades cariocas, depois em Israel com lideranças juvenis e com o doutores da alegria e, desde então, com empresas e startups.

Desde que fundei o TEMPLO, em 2012, venho também experimentando novas formas de educação, desenvolvendo pesquisas e experimentos ligados à economia criativa e ao futuro do trabalho. Foi daí que surgiu a Malha, em almoços para o ecossistema da moda. Atuei também no mercado financeiro e no terceiro setor ao longo desses anos.

 

Nos seus talks, você enfatiza o momento que vivemos como de transição. Quais mudanças você tem observado no trade de moda nacional?
A moda está passando por um processo profundo de transformação que está ligado a uma transição maior de modelos vigentes. Não por acaso temos visto crises econômicas seguidamente ao redor do globo, revoluções sociais (primavera árabe, junho de 2013 no Brasil, entre outras) etc.

Na moda, a transformação é estrutural. Começamos finalmente a enxergá-la como expressão das múltiplas narrativas identitárias, como a relação do self com o mundo para além do trade de vestuário. Nesse cenário, tendências ligadas ao consumo consciente, ao comércio justo, à moda open source, crowdsourced e com propósito se faz muito presente.

 

Como a cibercultura vai mudar o jeito do público consumir e das marcas fazerem moda?
Vemos uma área de interseção muito forte entre moda e tecnologia com a ascensão dos wearables, uso de realidade virtual na experiência de consumo, transformação dos pontos de venda em espaços de experiência etc. Mais do que a aplicação de tecnologia em vestuário, existe uma correlação profunda na forma como nos expressamos no dia a dia e a moda.

Uma vez que os Millenials vivem on-line de forma intensa (com quantidades gigantes de estímulos), ocorre uma espécie de cauda longa de estilos (pós-demográfica), que emerge como o novo normal. Ser indie e hiper-nichado se torna mainstream. O que antes seria um paradoxo se torna possível e até inevitável nesse contexto de cultura líquida.

 

Como os núcleos de coworking que você lidera têm respondido a essa era?
Uma reação natural a uma era líquida e hiperconectada é justamente a hiperlocalização do consumo e também do trabalho. Os espaços de coworking emergem desse contexto.

Uma vez que se pode trabalhar remotamente (com times ao redor do mundo em horários flexíveis), a cultura do coworking permite trocar ferramentas, conhecimentos, conexões em tempo real. Garante a possibilidade de uma experiência única que mescla trabalho, consumo, educação e entretenimento. Esses espaços funcionam como território intermediário entre a casa e o escritório, alavancando negócios e relações.

 

Em relação ao perfil dos profissionais criativos envolvidos na moda, o que é necessário desconstruir para aprimorar?
Existem muitos vícios na forma que conhecemos de fazer moda ligada à cultura de hiperconsumo, crédito e propaganda. Conforme a cultura do acesso cresce e a da propriedade decai, passamos a lidar com um novo paradigma de marcas ativistas, economia da experiência, o declínio da propriedade intelectual em favor do open-source etc.

Os profissionais da moda tradicional não estão prontos para essa transição, mas não podem escapar dela. Vivemos num momento em que é preciso buscar a inovação em outros campos do conhecimento e trazê-lo para a indústria da moda. Conforme as cadeias de valor se transformam nessa indústria, as empresas com uma cultura de inovação ágil e profissionais versáteis, com mais soft-skills do que especializações técnicas, levam vantagem.

 

 

Fotos: Divulgação/ ThinkStock

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