Encontro reúne mais de 150 pessoas para discutir novos caminhos para a moda brasileira

 

O sistema da moda está em fase de transição. Se antes, termos como gênero, efemeridade, estética e competição pareciam dar conta das macrotendências de uma sociedade imersa no consumismo do século XX, hoje a equação está mais complexa, e não fecha enquanto não passar pelo filtro do propósito.

“Costumo chamar a geração Z de moderna com causa, pois ela toma partido contra aquilo que não aceita, como as ondas globais de conservadorismo que seguem excluindo minorias ainda nos dias atuais”, expõe a coolhunter Iza Dezon, da Peclers Paris, no talk sobre macrotendências do ModaInfo 1.18, que aconteceu em 5/4 no Centro Cultural B_arco, em Pinheiros, zona sul de São Paulo.

Ou seja, enquanto a maior parte do mercado se especializou em desenvolver coleções cada vez mais rápidas a um custo financeiro sempre menor, ampliando a margem de lucro ao mesmo passo em que acelerava a degradação ambiental e social do planeta, assistimos todos boquiabertos à crise econômica-social que se instaurou ao redor do globo colocar nossas medidas tradicionais de grandeza em xeque.

Afinal de contas, como a moda, acostumada a ditar tendências, pode continuar despertando o desejo do público num cenário de tantas inseguranças?

“Sabemos que até 2050 haverá mais plástico do que peixes nos oceanos e que, hoje, já ingerimos parte do plástico que os animais comem por engano”, expõe Iza.

Apesar da previsão desse cenário apocalíptico não ser uma novidade, sua aproximação do nosso tempo tem motivado iniciativas de ruptura do sistema da moda com a lógica da reprodução em massa da revolução industrial.

Não por acaso, movimentos disruptivos como o Fashion Revolution, que exigem transparência em todos os processos produtivos do meio fashion, vem ganhando força ao redor do globo, incitando tanto a sociedade civil quanto o governo a questionar os compromissos sociais assumidos pelas marcas.

 

Diálogos  

A verdade é que passamos muito tempo olhando para os produtos à venda no mercado para entender as apostas da concorrência, mas esquecemos que, se as nossas ofertas não estiverem alinhadas com os valores expressos pelo nosso público, não tem o porquê de existirem, como pontuou o fashion globalizer Evilásio Miranda no #ModaInfo ano passado.

Joyce Prestes e Marina Colerato, no #ModaInfo 1.18

Nesse sentido, Marina Colerato, do Modefica, e Joyce Prestes, da Think Eva, capitanearam a discussão sobre a apropriação da pauta social pela moda na Arena Fashionwash.

“Mais do que lançar uma camiseta que estampe frases do movimento feminista, o que enquanto produto é só uma commodity, a gente quer ver as marcas realizando modelos de gestão inclusivos com os funcionários, equilibrando as ofertas de emprego e salários justos entre homens e mulheres. Promover essas mudanças é proporcionar transformações reais para o mercado”, afirma Marina.

E as marcas que estão atentas às discussões essenciais do público vêm se destacando das que não praticam a escuta de mercado. Vide o caso da Avon, que sob consultoria da Think Eva, ressignificou seu entendimento sobre beleza ao diversificar o casting das suas campanhas publicitárias.

“O feminismo não é uma tendência, veio pra ficar. As pessoas estão descobrindo que é bom se sentirem bem na própria pele”, avalia Joyce.

De olho na necessidade de identificação das pessoas com o valores das marcas, o empresário Wolf Menke, à frente da House Of All, compartilhou sua perspectiva sobre as parcerias que realiza com as marcas com o público do #ModaInfo.

“Acreditamos que a experiência do acesso a um produto é mais importante para as pessoas do que a da posse”, explica ele, expert em ativações de marca, que juntou 6 mil pessoas num show de rua da rapper Karol Conká no encerramento do Women’s Music Event Awards, em março, numa parceria com a Vevo Brasil.

Wolf aproveitou sua fala no ModaInfo 1.18 para divulgar para o nosso público o lançamento da House of M.O.O.C, uma co-branding com o coletivo M.O.O.C. (Movimento Observador Criativo), criado em 2016 por 8 jovens negros da periferia de SP, que desenvolve soluções criativas voltadas à representatividade no meio publicitário, colecionando cases com marcas como Nike, Converse, os artistas Elza Soares e Rincon Sapiência, além do bureau de tendências Box 1824.

Coletivo M.O.O.C.

“Queremos ver jovens negros em todas as posições de protagonismo. Para que isso aconteça, eles precisam acreditar que podem chegar aonde quiserem e é por isso que representatividade importa”, reflete Levy Souza Moraes, do M.O.O.C.

E por falar em futuro, ele já chegou

“O mundo mudou, o futuro da moda é agora, quando a gente fala em lidar com o futuro, estamos falando sobre nos preparar para a transformação que já está em curso”, reflete a coach Ângela Valiera, mediadora do #ModaInfo 1.18.

Se tem uma coisa positiva sobre a iminente falência dos modelos anteriores, é que eles abrem espaço para experimentar o novo e exercer, de fato, a criatividade.

A estilista Neila Bianchi, à frente da marca de moda infantil Boca Grande, voltada ao universo do balé, contou os desafios de propor uma coleção-cápsula sem gênero para sua equipe. “Do estilo ao comercial, tive de convencer as pessoas que desenvolver uma coleção sem gênero era dar um passo rumo à inclusão de todos, tanto do menino, que não encontra roupas bacanas, quanto da menina, que só usa rosa porque não tem outra oferta”, expõe.

E se, durante muito tempo, as tecnologias foram consideradas as vilãs no distanciamento do homem com a natureza, no nosso mundo pós-moderno são elas que estão resgatando a humanização das nossas relações, como expôs Daniel Milaré, diretor de varejo da Amaro, em seu talk sobre Omnichannel.

“Por meio da integração de todos os nossos canais de contato com as clientes, conseguimos compreender seu perfil de compra e investigar se os produtos que ofertamos a elas realmente as deixam satisfeitas. Para nós, a tecnologia veio como um meio de entregar soluções para o nosso público”.

Daniel Milaré, da Amaro

Nativa mobile, a fast fashion Amaro se destaca em nosso mercado por ser o único player do segmento a explorar o potencial disruptivo da mineração profunda de dados em favor do desenvolvimento de novas coleções de moda. Um exemplo disso são os sensores de RFID (sigla para identificação por rádiofrequência, em português) instalados nos provadores, que medem a aceitação de cada peça experimentada pelas clientes nas guide shops para analisar tanto a sua assertividade quanto o perfil de compra da consumidora.

“Hoje, o nosso sistema identifica as clientes independente do canal que elas entrem em contato conosco. Seja na loja física, em seu celular ou num desktop, sua experiência com a Amaro é personalizada. Não podemos generalizar mais o atendimento ao cliente”, acredita o executivo.

Aposta similar foi feita ano passado pelo e-commerce de luxo Farfetch, que também marcou presença no #ModaInfo 1.18 e, ano passado, adquiriu a boutique Browns, em Londres, para desenvolver a Loja do Futuro, voltada a experiências de compra no ambiente físico totalmente integradas no off-line, utilizando programas de inteligência artificial e tecnologias emergentes, como a realidade aumentada, apontada pelo Business of Fashion como um case para se prestar atenção em seu report sobre 2018.

“Quando iniciamos a operação da Farfetch no Brasil, em 2011, o consumo on-line de moda ocupava a 23ª posição no ranking global do e-commerce e, por isso mesmo, era bastante desacreditado. Hoje, moda é a categoria que mais vende na internet em nível global e sabemos que cerca 70% das vendas totais de moda são influenciadas pelo digital de alguma forma”, avalia Daniel Funis, CEO da Farfetch no Brasil.

Funis projeta que até 2025, o consumo on-line de artigos de moda salte dos atuais 8% das vendas totais para 25%. “A tecnologia nos permite a personalização do atendimento e estamos nos preparando para atender a esse cliente conectado com cada vez mais recursos e qualidade”, finaliza.

 

Foto em destaque: Daniel Funis, da Farfetch, em talk sobre e-commerce no #ModaInfo 1.18

Créditos das fotos: Renato Souza/ Soul Art

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