Consumismo é posto em xeque na moda

 

Se no início do século 20, auge da Belle Époque, o filósofo Georg Simmel já associava a excitação e o nervosismo de uma época à aceleração das mudanças na moda, imagine o que diria ele sobre os efeitos do bombardeio de tendências via smartphones cem anos depois, responsável por colocar o desejo pelo novo em tempo real literalmente nas mãos das pessoas.

É inevitável lembrar que a aceleração do consumo da moda na virada do século veio a um preço alto para o planeta. Para se ter uma ideia, de acordo com o Sinditêxtil, apenas na região do Bom Retiro, 20 toneladas de insumos têxteis que nunca foram usados são descartados diariamente. Nessa corrida contra o tempo, quem pensa no pós ciclo dos produtos sai na frente.

A mais recente iniciativa de visibilização dos efeitos do consumismo coube à estilista Stella McCartney, conhecida pelo engajamento ao vegetarianismo e a utilização de matéria-prima cruelty free em suas coleções, que realizou seu último editorial num aterro sanitário, chamando a atenção tanto para o lixo produzido pelo homem quanto para a sua pesquisa em tecidos sustentáveis.

No site da marca, é possível conferir as escolhas da estilista acerca dos materiais utilizados nas roupas, como o couro sintético, livre de PVC, a viscose orgânica – tecido extraído da celulose com certificação -, o algodão orgânico, que utiliza até 70% menos água do que o convencional na sua produção, e os tecidos de poliéster reciclado.

A provocativa Vetements, que saiu da Semana de Alta-Costura recentemente, colocou na vitrine da Sak’s da 5ª avenida uma montanha de roupas doadas pelos funcionários a loja e sobras de estoque. O total será doado pela empresa à ong Rewearable, que capacita pessoas com deficiência para reciclagem dos looks. Impossível não associar esse monte de peças ao que está parado no guarda-roupa, né?

 

Visualizar esta foto no Instagram.

 

Uma publicação compartilhada por Tatiana ✨Mindful Stylist (@tatiana_not_official) em

Por aqui, a estilista Flávia Aranha, um dos principais nomes da sustentabilidade na moda nacional, anunciou semana passada a utilização de restos de pau-brasil encontrados em oficinas no Espírito Santo para o tingimento das peças da sua última coleção.

A madeira está em extinção por conta da extração predatória do bioma e não pode ser comercializada. Para além do simbolismo da utilização da madeira cuja cor de brasa deu nome ao país, a lembrança da extinção da matéria-prima escolhida por Flávia vai ao encontro do alerta da Stella McCartney sobre a necessidade de virada no segmento da moda.

“A sustentabilidade é uma possibilidade de longevidade nesse mercado”, afirma Nathalia Anjos, coordenadora do Senac Moda Informação, que continua “precisamos entender esse momento de crise econômica e valores éticos como uma oportunidade de desenvolvimento e união da moda”, finaliza.

 

Foto em destaque: Instagram/ @StellaMcCartney

Comentários

Comentários