Sim, é possível! Baseada na Economia Circular, mais do que seguir tendências, a estratégia funciona para garantir um futuro saudável para o planeta e para as próximas gerações. Para provar e inspirar, entrevistamos Adriana Tubino, sócia-fundadora da Revoada, marca de moda sustentável, que trabalha com acessórios, brindes corporativos e consultoria para empresas. Ao lado de Itiana Pasetti, elas fundaram a marca em 2013 a partir de uma inquietação da dupla com o lixo gerado pelas grandes indústrias, com quem trabalhavam até então.

Perseguir a ideia de economia circular e aplicá-la a um negócio de moda não é tarefa das mais fáceis, especialmente sendo um pequeno empreendedor no Brasil, mas elas provam que dá pra fazer e que vale a pena! Tudo por uma moda mais justa e um planeta mais saudável.


Adriana Tubino, sócia-fundadora da Revoada

Como surgiu a ideia da Revoada?

A ideia surgiu do meu encontro com a Itiana Pasetti, porque já éramos amigas e trabalhávamos com moda. Em meados de 2011, estávamos na grande indústria criando coleções de produtos e já tocadas pela questão do desperdício. Muito resíduo era gerado e esses materiais, geralmente descartados, ainda eram – e são – bons para utilização.

Eu tinha um estúdio de design na época e trabalhava para marcas de moda, com branding, mas me dei conta que estava ajudando a vender produtos que não sabia como eram feitos, se existia por parte dessas empresas alguma responsabilidade social e ambiental.

Esse incômodo, especialmente com o que era tido como lixo, motivou a gente ao pensamento e um autoquestionamento sobre a possibilidade de fazer produtos de outra forma, mais sustentável. Resolvemos experimentar e descobrir, e a partir dessa fagulha nasceu a Revoada. Primeiro com pesquisas, encontros, conversas até que, em 2013, formalmente criamos a marca.

Já chegamos ao mercado com cinco produtos feitos de câmara de pneu e tecidos de guarda-chuva que estavam no lixo! E isso já era uma das respostas para o nosso questionamento inicial. O lixo não era o fim e ainda existia muito potencial de reaproveitamento, ele era nossa fonte criativa.

Como eram os primeiros produtos desenvolvidos e como esse processo evoluiu?

A câmara de pneu foi um ótimo substituto para o couro e o tecido de guarda-chuva, inicialmente, era o forro das nossas peças. Eram acessórios de moda. Depois abrimos uma frente de brindes para empresas e, nos últimos anos, a pedido de algumas empresas clientes, abrimos também uma consultoria, que se chama Design Vital, justamente para ajudar esses parceiros no desenvolvimento de ciclos como o nosso. A ideia é apoiá-los no olhar para os seus resíduos, para os excessos, e ressignificar tudo isso, reinserindo o que seria descartado nos seus processos produtivos e, assim, voltar os olhares para a economia circular.

Por que moda circular? Como decidiram trabalhar dessa forma?

Porque era o que fazia sentido! Mesmo que a gente ainda não soubesse, em 2013, o que era isso, intuitivamente fizemos um processo que representava os conceitos de economia circular. Como já iniciamos olhando para o lixo, para a questão do desperdício, percebemos que seria necessário olhar e cuidar de todo o nosso ciclo produtivo, para não repetirmos os processos que nos fizeram criar a marca, ou seja, que nossos produtos, lá no final, também não virassem lixo. Então, naturalmente fomos desenhando um processo que gerasse impacto positivo em todas as pontas.

E como funciona o processo da Revoada?

A gente compra as câmaras de pneu direto dos borracheiros e os tecidos de guarda-chuva dos catadores, nas unidades de triagem de lixo seco. Ambos os materiais iriam para descarte e as pessoas que nos fornecem são remuneradas por essa compra. Depois, esse material é higienizado por um parceiro de lavanderia que faz captação de água da chuva, tratamento correto da água e todos os quesitos adequados ambiental e socialmente.

Produzimos as peças com cooperativas de costureiras, gerando impacto positivo para essas pessoas e alguns pequenos ateliês familiares. A tag (etiqueta) dos produtos conta essa história e convida os consumidores a participarem da nossa logística reversa, ou seja, quando forem se desfazer de algum produto da marca, entrarem em contato com a gente para que a gente recolha a peça que seria descartada e possa reinserir na produção. Essa última fase era feita por meio de doação para parceiros que utilizavam na produção de asfalto e alguns materiais como para-choque, mas estamos avaliando a reinserção no nosso próprio ciclo, da Revoada.

Como vocês enxergam a importância do design no trabalho da marca?

O design é fundamental no trabalho da Revoada, porque estamos trabalhando com uma matéria-prima vinda do lixo. Para fazer esse processo de upcycling, de valorização de algo que não tinha mais valor, o design é essencial, porque entregamos um produto comparável a qualquer outro produto, sustentável ou não, feito de resíduo ou não.

O objetivo é que as pessoas olhem para o que a gente produz, como as nossas mochilas, por exemplo, e desejem aquilo, queiram ter essa mochila, assim como elas olham para mochilas de outras marcas. O design gera qualidade, acabamento e estética. Mas também é fundamental para que a gente consiga desenhar produtos inteligentes, que se desmontem no final do processo (de uso), que levem a menor quantidade possível de insumos e facilitem a destinação e o reuso dos materiais.

Quais são as dificuldades de trabalhar com moda circular?

A gente tem a sensação de nadar um pouco contra a maré. O tempo de lançamento e o custo final dos produtos oferecidos por grandes empresas de moda, especialmente pelo mercado de fast fashion, são muito diferentes de quem trabalha de forma justa com toda a cadeia. Vemos os escândalos sobre as condições de trabalho oferecidas a muitas pessoas nessa indústria, os impactos negativos sobre o meio ambiente, mas o produto se torna muito competitivo.

Trabalhamos com um nicho, em um mercado que está em crescimento, mas que ainda é pequeno frente a esse sistema. Quem trabalha com valores como os nossos, não está brigando por preço, mas por valor agregado, pela origem dos seus materiais, pelo cuidado com todas as etapas e as pessoas envolvidas. Isso gera resultados diferentes, inclusive o preço final do que produzimos.

Além disso, existem as dificuldades de ser um pequeno empreendedor, lidar com as burocracias e, principalmente, em momentos como esse que estamos vivendo, que empresas menores sofrem bastante financeiramente. A pandemia diminuiu as vendas dos nossos produtos e as empresas que estavam com a gente transferiram alguns projetos de 2020 para 2021, o que nos impactou muito.

Mas no fim das contas, o negócio é rentável para todo mundo que está no processo da marca? E é lucrativo?

Todas as partes da nossa cadeia são bastante valorizadas. É claro que se estivéssemos produzindo em uma escala muito maior, o negócio seria muito mais lucrativo. A gente preza muito pela valorização de todas as pessoas envolvidas nesse processo, com isso a lucratividade é menor. Não estamos explorando nenhuma parte dessa cadeia, mas ainda assim somos rentáveis, se não o negócio não estaria mais em pé. A Revoada já existe há sete anos!

O que você diria para quem quer começar um negócio de moda?

Acho incrível que as pessoas já comecem a pensar seus negócios de forma circular. Especialmente para os jovens que estão saindo das universidades, é fundamental conhecer a economia circular. Para quem quer empreender, essa é uma nova forma de pensar, muito mais inteligente e que gera impacto positivo em todos os seus processos.

Por muito tempo, estamos produzindo de uma forma linear, que tem gerado muito resíduo, poluição, além do descuido no processo produtivo. Vende-se muito e descarta-se muito também. O resultado é sermos o terceiro país que mais gera lixo no mundo, com apenas 3% sendo reciclado! A economia circular traz uma nova visão, desde a concepção do produto até o que seria o fim dele, que na verdade se torna um recomeço, já que ele é reinserido de alguma forma nessa cadeia produtiva.

Então, para quem está começando um negócio, seja de moda, ou de outra área, recomendo que leia e conheça a economia circular. Pense se o seu negócio pode começar a vida no mundo de uma forma bem mais saudável e positiva para as próximas gerações!

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