Conheça as ideias de quem está empreendendo em negócios alternativos na moda

 

Sempre provocativa, a moda é tanto avesso quanto agente das mudanças de seu tempo e, nesse momento de crise, cada vez mais surgem discussões sobre o futuro da economia capitalista, alavancada pela valorização da escassez, em relação ao surgimento de modelos alternativos de vida e consumo.

Afinal de contas, o planeta ainda aguenta produzir tanto? O que fazer com o excedente das coleções de moda parado em estoque? “A cada cinco minutos, 10 mil peças de roupas que nunca foram usadas são jogadas fora no mundo”, analisa a estilista Gabriela Mazepa, idealizadora do Re-Roupa, especializada em upcycling.

Esse interesse por aproveitar os recursos disponíveis da melhor maneira ao invés de optar pelo descarte programado da moda a cada troca de estação também aparece no radar de outros empreendedores, que incluem o impacto social do seu modelo de negócio para calcular o breakeven, sonhado ponto-de-equilíbrio, que indica que o empreendimento já se paga sozinho.

“Enquanto o mercado capitalista se baseia no interesse próprio e é guiado pelo ganho material, os bens comuns sociais são motivados por interesses colaborativos e guiados por um profundo desejo de se conectar com os outros e de compartilhar”, escreve o economista norte-americano Jeremy Rifkin em “Sociedade com Custo Marginal Zero”, de 2015, em que analisa a economia colaborativa como o sistema que tomará o lugar do capitalismo em meados do século 21.

Herman Bessler, cofundador da Malha.CC, no Senac Moda Informação 2017 ed.1

Herman Bessler, cofundador da Malha.CC, no Senac Moda Informação 2017 ed.1

De olho no compartilhamento dos recursos, Herman Bessler, cofundador da Malha.cc, cowork de moda no Rio de Janeiro, avalia o crescimento do interesse de novas marcas nesse modelo. “Nos últimos anos, vimos as plataformas de crowdfounding, cowork, creative commons e open source desenvolverem uma economia baseada na experiência, não na propriedade. Usufruir sem possuir, eis a virada”.

O mesmo pensamento motivou Wolf Menke, idealizador da House of All a abrir, em 2015, a House of Bubbles, lavanderia que abriga um bar e um serviço de assinatura de roupas estilo Netflix, fruto da parceria entre o empreendedor e a Roupateca, pioneira na atividade no Brasil.

“A lavanderia é uma estratégia para atrair as pessoas e fazê-las experimentar os produtos que estão na casa, como a assinatura das roupas, que sai mais barata do que a renovação de todo o guarda-roupa a cada troca de estação. Os assinantes têm sempre looks novos que não ficam parados em casa ocupando espaço”, revela Wolf, que despertou o interesse de labels desejadas como Farm e Nike em abastecer o seu acervo, que já ultrapassa 900 peças.

Festival Transforma, do Jardim Secreto Fair, em Sao Paulo. foto- Marcella Ferrari Boscolo

Festival Transforma, do Jardim Secreto Fair, em São Paulo/ Foto: Marcella Ferrari Boscolo

Como Herman avalia, “é tão inovador empreender sem reproduzir a estrutura de exploração do capitalismo que as pessoas dispostas a investir nesse segmento têm dificuldade de se firmar”. Essa perspectiva é compartilhada por Gladys Tchoport, idealizadora do Jardim Secreto Fair, uma das principais feiras abertas voltada ao consumo de produtos artesanais e sustentáveis de São Paulo, e participante do coletivo de criação da 2ª edição do #ModaInfo, que acontece em 25 de outubro.

“É bem difícil empreender com uma margem pequena de lucro, nós mesmos ainda estamos em busca da sustentabilidade do nosso negócio. Há vezes em que pagamos todo mundo e ficamos zeradas. Noutras, o dinheiro precisa durar para cobrir eventuais emergências, ou projetos-piloto”, avalia Gladys.

Lu Bueno, do Banco de Tecidotambém revela ainda pagar as contas com atividades paralelas, mas não ter interesse em fazer do seu negócio um hipermercado. “Se nos tornarmos enormes, significa que entramos na megalomania do consumismo, não queremos isso”.

 

Foto: Divulgação

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