Transposição é o tema dessa edição do principal evento de moda do país

 

Uma das maneiras mais conhecidas de comentar uma semana de moda é destacar as repetições dos temas, cartelas de cor, modelagens e tecidos usados pelos estilistas para contarem suas histórias na temporada.

Sabemos que estar atento a isso é importante mas, para se fazer uma análise de moda, há de se ter um olhar também para o que motiva a novidade entregue na roupa.

Com isso em mente, fomos conhecer a Arca, nova casa do SPFW (São Paulo Fashion Week), um galpão localizado numa área industrial da zona oeste de São Paulo, cujo horizonte de concreto diverge do arborizado Parque do Ibirapuera, endereço do evento por duas décadas, na abastada zona sul da cidade.

No trajeto, passamos pela comunidade que ladeia a Avenida Manuel Bandeira, endereço da Arca, pela qual transitam diversas pessoas em situação de rua, grupo preterido pela Prefeitura de São Paulo na atual gestão e que, por ironia do destino, nessa semana dividiu espaço com os carros dos fashionistas que chegaram ávidos para conferir um dos principais eventos culturais patrocinados por ela.

Apesar de os paulistanos estarem habituados a lidar com os contrastes da maior cidade da América Latina, esse tipo de imagem nos dias de hoje surpreende por confirmar que a tendência da descentralização dos grandes eventos para bairros de menor IDH (índice de desenvolvimento humano) por si só não dá conta de entrosar a população local com quem está chegando, principalmente no caso de um evento elitizado, realizado a portas fechadas.

Contudo, será preciso avaliar mais temporadas para ter clareza sobre os benefícios que essa transposição, que é tanto o tema quanto proposta da edição atual, proporcionará para os moradores do entorno.

Apesar disso, o estranhamento do espaço foi breve. Ao entrarmos no evento, percebemos que, apesar da aposta em conteúdo educativo no Farol Santander, a experiência principal do SPFW continua girando em torno de desfiles exclusivos para os convidados das marcas e para quem desembolsou até R$300 para ver as marcas estreantes do Projeto Estufa cruzarem a passarela.

Uma vez lá, percebemos que a maioria das pessoas apostaram no dresscode de gala habitual das edições anteriores do evento para curtir sua ambientação contemporânea, ainda que desviando dos inúmeros buracos no piso de dentro e fora do galpão para cruzar os ambientes pouco ventilados das salas de desfiles, cercados por intermináveis cortinas cor de vinho e gigantes painéis de propaganda.

Cocriação com estudantes de moda

As colaborações realizadas entre marcas de diversos segmentos para criação de produto de moda sempre rendem cases inspiradores sobre construção de identidade de marca e, nessa sintonia, o estilista mineiro João Pimenta anunciou sua parceria com o Senac São Paulo como consultor criativo das nossas graduações em moda ao cruzar a passarela vestindo a camisa da firma!

Desfile João Pimenta feminino SPFW N46

A coleção desfilada por ele foi inspirada nas raízes indígenas e africanas do Brasil e trouxe, nas roupas 100% algodão, o exercício de construir looks bold sem nenhum aviamento, fechados por amarrações que ora davam sustentação, ora abriam fendas, equilibrando o peso do tecido geralmente usado para compor peças mais simples.

Dos 36 looks desfilados, 5 foram desenvolvidos por João em parceria com os alunos da nossa graduação, que foram orientados por ele a experimentar a modelagem criativa em silhuetas amplas, uma marca sua. “Trabalhamos ao lado dele desenvolvendo peças em moulage, desde o croqui ao look final na passarela, foi um aprendizado muito rico” avalia o estudante Eugênio Santos.

Os estudantes de moda William Andrade e Beatriz Praisler no SPFW N46

O Senac também marcou presença no desfile da Piet e no desafio lançado pela Braskem em parceria com o SPFW e a estilista Patrícia Bonaldi de desenvolver um look inteiro a partir de um polímetro de plástico reciclado, e foi representado pelos estudantes de moda William Andrade e Beatriz Praisler, que tiveram 3 dias para criar um look de praia, que ficou exposto para visitação no estande da empresa no SPFW. “O nosso principal desafio foi pensar na construção de uma roupa sofisticada, com a cara da Patrícia, a partir do plástico, matéria-prima com que trabalhamos apenas na construção da peça”, reflete William, que continua, “ter conseguido executar a proposta foi muito importante para nos mostrar que somos capazes”.

Protestos

Célio Dias, da LED, no SPFW N46

Célio Dias, da LED, no SPFW N46

O comportamento um tanto quanto cristalizado do público também se fez notar no silêncio do público em protestos políticos escancarados como o dos estilistas Célio Dias, da LED, e da Marina Dalgalarrondo, da Ão, na semana que precede uma das eleições mais inflamadas do nosso país e que certamente influenciarão a criação de moda nas próximas temporadas.

Ao final do SPFW, contudo, a artista Karla Girotto promoveu uma performance com uma manta vermelha enorme, manifestando seu apoio ao candidato Fernando Haddad.

Talvez tenha sido nesse recorte político que tenhamos visto algo de novo em termos de pesquisas sobre brasilidade na moda, habitualmente decodificada em fendas ultrassensuais e estampas que retratem à perfeição nossa fauna e flora exuberantes, como as apresentadas pela Patbo e Amir Slama em seus fashion shows, e no domínio das artes artesanais, no caso das marcas Borana, Karine Fouvre e LED, veteranas do projeto Top Five do Sebrae.

 

 

Inspiração no oriente

Lucas Leao-Projeto Estufa- SPFW N46

No entendimento sobre o brasileiro dos dias atuais, marcas como Lucas Leão, Cotton Project e Ronaldo Fraga foram buscar inspiração no oriente e a sua relação com a liberdade de expressão.

Batizada de Pendular, a coleção da Lucas explorou a toxicidade do regime ditatorial norte-coreano para dar acabamento sintético às fibras de algodão de seus trajes monásticos, desfilados a um som que remetia o apocalipse. “estou muito sensibilizado com o que está acontecendo no país, não conseguiria fazer uma coleção solar, feliz”, explica o estilista.

Já a coleção da Cotton foi inspirada no conceito de hiperrealidade nascido na extinta União Soviética para falar sobre a pós-verdade dificulta a apuração dos fatos e das fake news, movimento traduzido na persona do turista de veraneio que viaja o mundo a passeio.

Por sua vez, Ronaldo Fraga, conhecido pela contação de histórias nos desfiles, escolheu desta vez explorar uma Tel Aviv paz e amor, em que árabes e judeus se sentam à mesa, cena que ele disse ter vivenciado na capital israelense numa viagem que realizou no começo do ano e que reproduziu em seu desfile ao convidar todos os presentes a ceiar com seu staff no final do show.

“Para mim, por causa daquele dia em Tel Aviv, a tolerância sempre vai ter o cheiro de uma laranjeira em flor”, explicou Ronaldo no release enviado à imprensa. Vale lembrar que essas laranjeiras são um dos símbolos de apagamento cultural sistêmico da população árabe da região, confronto em nome do qual inúmeros artistas se negaram a comparecer ao festival de cinema na cidade este ano, dentre eles a brasileira Linn da Quebrada e a norte-americana Angela Davis.

A controversa visão do experiente estilista sobre o cenário escolhido para falar de amor às diferenças pode revelar tanto a inevitável normatização da gentrificação ou, para os mais resilientes, a comprovação de que, mesmo nos terrenos mais difíceis, encontramos resistência ao que a maioria aceita ser “normal”. Depende do seu ponto de vista.

Fotos: Fotosite

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