Tema foi discutido em talk de moda no Sustainable Brands, em São Paulo

 

Já imaginou acompanhar todos os processos de produção das suas roupas, da matéria-prima ao pós-ciclo de consumo? Essa semana, Neliana Fuenmayor, estilista à frente da A Transparent Company, consultoria especializada em rastrear isso tudo por meio do blockchain para as marcas de moda, veio a São Paulo contar seu case no Sustainable Brands 2017, num talk com Oswaldo Oliveira, da Organização Próspera, e Carl Amorin, do Blockchain Research Institute.

Painel Blockchain

Nielana Fuenmayor, Oswaldo Oliveira e Carl Amorin no Sustainable Brands/ Foto: Diego Garcia

O blockchain (do inglês, blocos encadeados) é um sistema que compartilha dados criptografados, ou protocolos de segurança, em rede entre os usuários diretamente, desintermediando as transações em contratos inteligentes.

Neliana conta que seu interesse por transparência na moda a levou a conhecer essa ferramenta em 2015, época de seu mestrado. “A possibilidade de saber efetivamente de onde vieram minhas roupas e como elas foram feitas me pareceu como o elo entre o storytelling de um produto e sua verificação, uma ferramenta contra o greenwashing (marketing verde, em tradução livre do inglês)”, diz a estilista.

Sua consultoria concluiu o caso pioneiro de rastreamento de suéteres de alpaca da Jalgaard, disponibilizando o histórico das peças – da criação dos animais em fazendas até a venda – no QR code da etiqueta.

Mas o que é blockchain, afinal?

A diferença entre o blockchain e os sistemas de certificações convencionais é a descentralização da informação, ou seja, não é necessário que uma entidade confirme se uma marca está seguindo boas práticas de produção, pois cada usuário pode fazê-lo de forma direta, alimentando a rede com dados que são instantaneamente distribuídos para todos os envolvidos.

Esse sistema surgiu em 2008 para suportar as transações de bitcoins (moedas digitais) e funciona como um protocolo de segurança.

Por operar com registros públicos e abertos, o custo de busca e manutenção são reduzidos, estabelecendo-se reputações entre os usuários baseadas nas transações realizadas.

Há três características básicas para compreender o blockchain: segurança dos dados, registro da informação e interdependência dos usuários.

Oswaldo Oliveira

Na prática

Se qualquer pessoa pode certificar se as marcas estão ou não cumprindo com as normas a que se submetem, fica cada vez mais difícil esconder informação, o que faz do blockchain uma ferramenta de empoderamento social em tempos de descrença em instituições, um antídoto contra a desconfiança.

Contudo, como alerta Carl, “não é a tecnologia que transforma a sociedade, são as próprias pessoas”. Uma ferramenta será tão boa quanto o uso que se fizer dela. “É necessário mudar nossa mentalidade primeiro, pois fomos educados sob um paradigma industrial, de produção linear, não entendemos um projeto de organização distribuída ainda, buscamos por hierarquias”, acredita o especialista.

Futuro

Isso pode parecer distante de nós, mas o governo indiano está estudando a possibilidade de acabar com o dinheiro físico e colocar sua economia em blockchain, ao passo que as transações confirmadas de bitcoins vêm crescendo exponencialmente, chegando a quase meio milhão por dia.

A abundância de informações via blockchain frente ao pouco acesso que se tem sobre os processos produtivos das marcas que consumimos vislumbra um futuro próximo em que a transparência seja vista como, de fato, geração de valor para o trade de moda, conhecido como um dos mais poluentes do planeta, e promete sacudir as estruturas da nossa sociedade conectada, ao influenciar um dos poderes mais caros ao capitalismo na mão dos coletivos, o de compra.

 

Para saber mais

Confira o livro e o site Blockchain Revolution

 

Foto em destaque: Thinkstock

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