Exposição traz mais de 70 obras de artistas do movimento De Stijl

 

Quase três meses após a estreia da exposição Mondrian e o Movimento de Stijl em São Paulo, chegou a vez da mostra desembarcar em Brasília, no CCBB. A exposição é gratuita e fica em cartaz até 4 de julho.

“Organizamos tudo para que o visitante possa acompanhar esse percurso e entender que aqueles retângulos coloridos que povoam até hoje o imaginário do moderno, e são tão facilmente reconhecíveis, não nasceram de uma hora para outra, nem por acaso”, explica o curador da exposição, Pieter Tjabbes.

Confira o review do #ModaInfo sobre a exposição

Mondrian e a Moda

Mondrian Colletion Foto: Divulgação do Museu Victoria & Albert

Mondrian Colletion Foto: Museu Victoria & Albert

Curiosamente, apesar de a obra mais famosa de Piet Mondrian (1872-1944), a composição com grande plano vermelho, amarelo, preto, cinza e azul, concluída em 1921, ter inspirado 44 anos mais tarde a icônica coleção ‘Mondrian’ de Yves Saint Laurent, além de inúmeras referências nas passarelas até os dias de hoje,  Tjabbes conta que não houve iniciativa na moda nem por parte do artista, nem por nenhum de seus colegas durante o movimento neoplástico De Stijl (1917-1928).

De acordo com o especialista, a forte influência do movimento sobre a moda se deve à sua linguagem simples e atual. “Os artistas desejavam criar uma linguagem universal, acessível à qualquer cidadão no mundo. Como isso funciona exatamente não sei te explicar, mas perceba que, ainda hoje, quase cem anos depois do fim do De Stijl, se você apresentar uma obra do neoplasticismo a um leigo, ele dirá que é moderno. Acho que, de certa forma, conseguiram o que queriam”, explica Tjabbes.

 

Confira a entrevista do #ModaInfo com Pieter Tjabbes na íntegra:

 

Pieter Tjabbes, curador da expoisção Mondrian e o Movimento De Stijl, no CCBB

Pieter Tjabbes, curador da expoisção Mondrian e o Movimento De Stijl, no CCBB de SP.

Por que os artistas do De Stijl escolheram trabalhar com ângulos retos e cores primárias em suas criações?

Faz parte da filosofia deste movimento. Os artistas acreditavam que o uso das cores primárias, além do preto, cinza e branco, junto às linhas retas, constituía uma linguagem universal que dispensava conhecimento histórico prévio da arte.

 

Então o intuito era democratizar a arte?

Sim, trata-se de uma linguagem que se adapta a qualquer situação no mundo. Eles acreditavam que era simples introduzi-la em diversos aspectos culturais e que, assim, o mundo mudaria.

 

O mundo mudaria em que sentido? 

Preciso explicar que essa ‘filosofia’ nasce com a teosofia, um movimento religioso que buscava o aprimoramento pessoal e do mundo. A ideia é encontrar o que é essencial dentro de si, retirando todos os ornamentos e a superficialidade, para se aproximar da energia universal que rege todas as coisas. Mondrian levou a teosofia muito a sério e, por meio dela, conheceu a matemática neoplástica, que explica como a utilização de ângulos retos e cores primárias criam efeitos especiais na mente humana.

 

Quais eram as aplicações desta técnica à época? 

Em arquitetura, literatura e design, principalmente. Os artistas queriam melhorar a condição de vida de todo o mundo, tanto espiritual quanto física, há muitos projetos de móveis e casas populares, por exemplo.

 

Por que as obras, que são centenárias, continuam tão atuais?

Para mim, os princípios do neoplasticismo se encaixam até hoje, então eles têm de fato algo universal. Sempre quando você mostra a cadeira do Rietveld ou a pintura do Mondrian para um leigo, a primeira reação infalível é que ele diga que é moderno. E a gente tem que lembrar que isso foi feito cem anos atrás, não é moderno, é atual. Então acho que eles conseguiram criar essa linguagem universal.

 

Não há registros de investidas artísticas do Movimento De Stijl na área de moda. Então como explicar a influência posterior, tão forte até os dias atuais?

Como eu disse, as obras do movimento se mantém atuais e acessíveis, por isto a influência ainda está presente. Eu não me refiro à aplicação da ‘estampa Mondrian’ em tudo, porque isso realmente se transforma no ‘efeito Monalisa’ e não acrescenta nada, mas sim a uma aplicação que respeite as regras do neoplasticismo e agregue, com certeza, informação às peças.

 

Gostaria que você comentasse a coleção icônica ‘Mondrian’, desenhada por Yves Saint Laurent na década de 60. O que você vê nela?

Entendo que o estilista queria tirar era a forma curvilínea da silhueta feminina e apresentar uma coisa mais moderna. A vontade de fazer esse modelito mais reto casou com o estudo das linhas retas e cores primárias do Mondrian e do movimento De Stijl. Neste caso, um chamou o outro.

 

 

Foto: Marcella Ferrari Boscolo

 

Comentários

Comentários