Alessandro Michele segue em narrativa alquímica à frente da label italiana

 

Após criar algumas das imagens de moda mais impactantes da temporada do inverno 2019, inspirada num cenário de transmutações corporais da raça humana como uma metáfora de liberdade de construção da própria identidade, a Gucci flerta com o misticismo ao realizar o desfile cruise na antiga necrópole de Alyscamps, na França.

Dessa vez, o alvo da transformação proposta pela label é o espírito – do tempo, da moda, das pessoas – cuja essência permanece mesmo após a morte, uma bela metáfora sobre ressignificação da crise atual no meio fashion como uma oportunidade de autoconhecimento.

Riscada por um traço de fogo, símbolo de transformação, a passarela da outrora necrópole do extinto império romano, hoje um passeio tombado pela UNESCO, se assemelhava a um portal ao unir figuras de diferentes períodos do nosso tempo, remixando elementos característicos da direção criativa de Michele, como a silhueta 70 fluida, o gosto pelo kitsch e cartela de cores açucarada, a pesadas figuras vitorianas em ritmo de procissão.

A estética gótica não se limitou à escolha do lugar, predominando também na beleza pálida dos modelos e na ornamentação mórbida dos looks, como os ossos da costela bordados com flores, crucifixos e pedrarias ao corpo do vestido preto de uma das viúvas de Michele.

“Alyscamps foi um cemitério romano, mas se tornou um passeio nos anos 1700; é hibridizado, não se parece com um cemitério porque é e não é. Eu gosto de coisas que parecem algo, mas não são”, explicou Michele no instagram da Gucci, que fez do nosso zeitgeist seu manifesto visual em favor de uma moda que não se fixa mais em padrões e é, ao mesmo tempo, uma coisa e outra, complexa de decifrar, como afinal as pessoas (e seus looks) o são.

Cercando-se de ícones da maison, como a utilização do seu próprio logo enquanto padronagem e a construção de looks inteiros a partir de lenços de seda, mais uma vez, o estilista consegue obter êxito na criação de imagens de moda que combinem referências retrô de uma forma jovem, divertida e descompromissada com padrões tradicionais de beleza, do jeito que os millenials gostam.

Vale lembrar que o frisson causado pela Gucci a cada desfile se reflete diretamente em seu faturamento. Já no primeiro trimestre de 2018, a marca de propriedade da Kering registrou um salto de 48,7% nas vendas em relação ao período anterior, com uma receita total de € 1.866,6 milhões.

 

Assista ao vídeo do desfile e veja os detalhes de todos os looks na nossa galeria:

Fotos: Fashion Snoops

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