Bom-humor e envolvimento na criação são chaves para compreender o mood da temporada

 

De olho no que cairá no gosto do mercado no próximo verão, o Inspira Mais 2020_I, salão de inovação de materiais para os segmentos de moda e decoração, deu início aos trabalhos hoje no Centro de Eventos Pro-Magno, na zona norte de São Paulo, convidando os profissionais a exaltarem o viés lúdico da criação.

Sob o mote Play!, um convite à diversão e ao envolvimento com a construção de marca, além de uma cartela de cor serena que remete aos corais no fundo do mar (a mesma confirmada pela Pantone em dezembro), o salão parece sugerir ao trade uma melhora no clima instável dos últimos meses, sem deixar a provocação inteligente de lado.

“Produtos devem encantar e transmitir otimismo como uma rebelião cultural. Há uma mudança em curso”, acredita Walter Rodrigues, coordenador do núcleo de pesquisa do Inspira Mais, que continua, “é preciso ter atenção em todo o processo, do pré ao pós-ciclo de consumo”.

Pensando no pós-ciclo, a feira está repleta de fornecedores voltados à sustentabilidade, como a Ambiente Verde, que desenvolve embalagens de um tipo encorpado de TNT feito com lixo doméstico recolhido por cooperativas, a Cofrag, que cria palmilhas de EVA biodegradável e o programa de certificação Origem Sustentável, específico para a cadeia de calçados.

Dentre as personalidades inspiradoras para esse movimento de subversão, Walter destacou o artista neoexpressionista Jean-Michel Basquiat (1960-1988), que mesclava diferentes técnicas e linguagens em suas obras, repletas de energia e autoreferência, os estilistas Rick Owens, 56, e sua visão “brutal chic” de moda, cuja aparente simplicidade na cartela de cor e silhueta dos looks oculta sua construção engenhosa, e o artista pós-impressionista Vincent Van Gogh (1853-1890), cujo dinamismo do seu traço criador Com amor, Van Gogh (2017), uma animação composta integralmente por uma sequência de quadros pintados à mão inspirada em suas obras.

Seleção de tecidos que compõem o mood Play!, da temporada 2020_I

“A complexidade do remix de informações nas obras desses criadores nos mostra a diferença entre ter acesso ao que se passa no mundo e saber interpretá-lo. Devemos olhar para as nossas referências de modo inovador para criar uma experiência única para o cliente”, avalia Walter.

Nesse sentido, as estampas e as texturas carregadas dos materiais em exposição apontam para uma temporada de excessos na construção dos looks, em grande parte por conta das sobreposições de informação, que muito se assemelham a exercícios livres de colagem e chamam mais a atenção para o ato de vestir, tal qual observamos nas passarelas da MFW (Milão Fashion Week) Verão 19.

Alinhado à tendência de sobrecarregar os tecidos com informação e à expectativa atual do trade de aumento de consumo, o maximalismo cai como uma luva para um mercado ávido por se distanciar dos últimos anos de recessão, afinal, quem aposta sempre em looks marcantes acaba, invariavelmente, adquirindo mais produtos para variar as próprias produções de moda.

Porém, é preciso que as marcas tenham prudência para não atravessarem esse período com coleções datadas que ninguém usará na estação seguinte. Por isso, conhecer a identidade da própria marca é sempre o primeiro passo na avaliação de tendências de moda.

2020_II

A euforia prevista no mood das criações para a temporada mais quente do ano deve suceder ao Zen, status contemplativo do vínculo do homem com o seu tempo, como avalia a designer Julia Webber, responsável pelo Projeto Referências Brasileiras, que sempre traz o tema do próximo salão em primeira-mão.

Tecido B-Cell em exposição no Inspira Mais

“Para resgatar nossa raiz brasileira, viajamos para a Bahia, berço da colonização no nosso país, para pesquisar sobre a arte da selaria e do trançado de sisal, além de documentar as formações rochosas no sertão corroídas pelo tempo, que age sempre”, reflete Julia.

Na seleção das matérias-primas do preview, chamou a atenção a escolha do B-Cel, tecido biohíbrido do ateliê paulistano Antimatéria, composto a partir de bactérias e leveduras que fermentam chá e açúcar para formar uma manta que lembra o couro animal, mas é biodegradável.

“Nós exploramos as possibilidades desse tecido nos acessórios do preview de forma bem experimental, quisemos agregar textura para ele para mimetizar a ação do tempo na natureza”, arremata.

 

Fotos: Marcella Ferrari Boscolo

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