ONG regulariza oficinas de costura e articula contatos com marcas comprometidas a sustentabilidade nas relações de trabalho no segmento

 

Qual história você quer vestir? A pergunta de abertura do manifesto do Instituto Alinha nos convida a pensar sobre a linguagem das roupas por um viés que quase ninguém conhece, o dos processos de confecção da nossa segunda pele.

Afinal de contas, quantos de nós conhecemos as mãos que fazem nossas roupas? Em tempos de consumo acelerado e produção em larga escala, quase ninguém.

Se, por um lado, a efemeridade das tendências de moda é um dos fatores que impulsiona o giro ultrarrápido das engrenagens da indústria bilionária do vestuário, por outro, distancia a realidade de quem trabalha nos seus bastidores do consumidor final, como as cerca de 14 mil oficinas que, de acordo com a ONG Repórter Brasil, atuam na informalidade em São Paulo.

Não raro, chegam denúncias da imprensa sobre oficinas em que as diárias de trabalho chegam a 90 horas semanais, sem equipamento de proteção adequado, tampouco salário justo ou direitos trabalhistas garantidos, como o caso envolvendo a M.Officer, condenada pelo uso de mão-de-obra escrava, que pode ficar proibida de comercializar roupas em São Paulo por até 10 anos.

Dariele Santos e Laila Mouallen

Dariele Santos e Laila Mouallen

De olho nessa realidade, a internacionalista Dariele Santos e a advogada Monyse Almeida fundaram, 2014, o Instituto Alinha, que busca resolver a situação precária das pequenas oficinas, também chamadas de facções, deixando-as em conformidade com a lei.

“O plano de ação prevê orientações nossas de melhorias às oficinas em relação ao processo de formalização, instalações elétricas, organização, saúde, segurança no trabalho, infraestrutura e relações de trabalho”, explica Laila Mouallem, coordenadora da Alinha.

Manifesto Instituto Alinha

Uma vez alinhada, a oficina integra a rede de contatos da ONG, que conecta marcas e oficinas interessadas em manter uma relação de trabalho justa na cadeia de moda. Para as oficinas, o alinhamento, que dura até seis meses, o atendimento é gratuito, já para as marcas, pode custar de R$30 a R$150 reais por mês.

“O plano mais barato dá acesso ao banco de dados e à utilização da etiqueta Alinha, já o mais caro contempla ações de comunicação integradas nas nossas mídias sociais, além de fomentar a manutenção da nossa plataforma, que não visa lucro”, esclarece Laila.

Em três anos de funcionamento, cerca de 70 oficinas já passaram pelo instituto Alinha, que em 2017 investiu R$28 mil no alinhamento de 10 facções em São Paulo, todas abertas por bolivianos. “Boa parte dos nossos recursos vêm de grandes organizações, como o Instituto C&A, o que têm nos proporcionado sustentabilidade financeira”, analisa Laila.

 

A oficina da costureira boliviana Lídia Romero foi um dos estabelecimentos alinhados pelo instituto em 2017, “foi melhor regularizar minha situação, pois, emitindo notas fiscais, posso estabelecer um prazo certo para receber os pagamentos pelos serviços”, revela Lídia, que continua, “um dos maiores empecilhos nesse processo para nós, estrangeiros, é o idioma e o desconhecimento das leis”.

Antes de ter sua oficina alinhada, Lídia aprendeu a costurar em facções informais no Brasil, em que recebia cerca de R$700 por jornadas de 16 horas diárias e chegou a ficar até três meses sem salário. ““Hoje tenho tempo para ficar com meus filhos, ir ao parque e ao cinema. No futuro, quero que eles tenham sua própria marca de moda, vão ganhar bem mais”, reflete.

Para o futuro, o instituto pretende multiplicar sua metodologia para outros estados e ampliar a oferta de serviços prestados. Saiba mais sobre a etiqueta Alinha, promovida pelo instituto:

 

Fotos:  Divulgação

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