Anúncio reacende polêmica antiga sobre o culto à magreza na moda

Os grupos LVMH e Kering, detentores de ícones da moda como Gucci, Louis Vuitton e Dior, anunciaram semana passada, na abertura da NYFW (New York Fashion Week), que cortarão dos seus castings modelos mulheres abaixo do manequim 34 e homens abaixo do 40.

No comunicado, a justificativa para o corte foi a preocupação com a qualidade de vida e bem-estar dos modelos, motivo pelo qual os profissionais menores de 16 anos também foram afastados dos castings adultos, sendo que, para os menores de idade que ainda poderão atuar, será exigido o acompanhamento dos responsáveis nos jobs, que não poderão acontecer entre 22h e 6h.

Campanha da Gucci censurada na Inglaterra/ foto: reprodução

Contexto

A iniciativa aconteceu após um fashion film da Gucci ter sido barrado pela  Advertising Standards Authority (Autoridade sobre Padrões Publicitários), agência reguladora de publicidade inglesa, por colocar uma modelo extremamente magra em cena, avaliando a escolha da marca como irresponsável.

Vale lembrar que, no primeiro semestre deste ano, o governo francês estipulou a necessidade de apresentação de atestado médico dos modelos, considerando sua saúde geral e, particularmente, o IMC (índice de massa corporal), que não pode ser inferior a 18, limite para um corpo saudável, segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde). O descumprimento desta lei pode acarretar em multas de 75 mil euros e até 6 meses de prisão para os empregadores.

Na prática

Fábio Antônio, fundador da agência Diamond de modelos, chama a atenção para o respeito com o biotipo das modelos. “há modelos que comem superbem e não engordam, quem geralmente sofre é a pessoa que inclui medicamentos na dieta em busca de resultados rápidos”, avalia o profissional, que explica que o padrão para as modelos de passarela é o manequim 36, sendo que elas geralmente medem até 1,90 cm de altura, enquanto que as comerciais vestem até 38.

Desfile "O Corpo Cru" de Ronaldo Fraga, no SPFW de 2002

Desfile “O Corpo Cru” de Ronaldo Fraga, no SPFW de 2002, que utilizou displays no lugar de modelos

Levando em conta essas medidas em voga, cortar o manequim 34 é um movimento tímido dos conglomerados fashion frente ao cenário global reivindicações de representatividade aos corpos reais, o que mostra a resistência da elite da moda em acompanhar a agenda social, deixando assim de abraçar o novo se alinhar com o espírito de seu tempo.  

A última denúncia de grande repercussão no nosso mercado sobre pressão para emagrecer veio da ex-modelo Délleny Mourão, no ano passado, cujo depoimento na rede social superou os 7 mil compartilhamentos, mas mesmo tops consagradas como Isabelli Fontana já declararam sofrer com transtornos alimentares em busca da magreza.

Por aqui, infelizmente não há legislação específica para o segmento, mas o São Paulo Fashion Week, que tem se destacado pela valorização da diversidade dos castings do seu line-up, exige que as marcas contratem modelos maiores de 16 anos.

De olho no futuro

“Acho que as marcas deveriam vender uma imagem mais realista. O padrão muito magro sempre será uma tortura para as modelos brasileiras, que possuem curvas que as europeias não têm e são absurdamente cobradas pelas agências para emagrecer. Mais importante do que o peso é a proporção corporal e o aspecto saudável dos modelos. A era Kate Moss já passou”, avalia a modelo e produtora Adriana Zselinszky Haider, 55, que que começou na profissão aos 14 anos e, ao longo de sua carreira, viu os padrões curvilíneos das manequins serem progressivamente substituídos por corpos supermagros.

Lembrando que os modelos são apenas a ponta da relação da indústria da moda e da publicidade com o culto à magreza, Nathalia Anjos, coordenadora do #ModaInfo, atuante na moda há duas décadas, chama a atenção para a responsabilidade dos outros profissionais da criação da imagem.

“A obrigação de definir quais imagens estão dentro e fora do padrão sempre será nossa, enquanto produtores, fotógrafos, stylists e outras figuras da moda. Para além do corpo magro, há muito o que se fazer a respeito do corpo plus, negro, sênior e abraçar a nossa diversidade”, finaliza Nathalia.

Foto em destaque: Louis Vuitton Paris – Inverno 2017 – Agência Fotosite

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