Apropriação cultural ou quebra de preconceitos?

 

Desde que ícones da cultura africana, como os turbantes e as estampas, ressurgiram como tendência de moda, muito se discute acerca de apropriação cultural. Afinal de contas, num mundo globalizado, marcado pela difusão de informação, faz sentido legitimar costumes a apenas um grupo específico? Ao mesmo tempo, como lidar com o esvaziamento de significado de ícones culturais causado pelas “modinhas”?

De tempos em tempos, comunidades ativistas chamam a atenção para posturas que julgam ser incorretas e as campanhas “anti” viralizam rapidamente, como o caso de Justin Bieber, que incorporou semana retrasada dreadlocks loiros ao seu visual e recebeu críticas nas redes sociais. E quem não lembra do caso da carioca Farm, que, ao publicar uma foto de uma mulher branca trajada como Yemanjá, foi acusada de tentar embranquecer a origem africana da divindade, ou do Baile da Vogue no início do ano, inspirado na África, que suscitou polêmicas acerca do mesmo tema?

O uso de turbantes por pessoas brancas também é frequentemente apontado como uma tentativa de embranquecer o significado cultural da peça em campanhas publicitárias. “Os turbantes, por exemplo, foram incorporados pelos povos africanos por influência dos muçulmanos, foi por meio de afrodescendentes de fé islâmica que o acessório chegou ao Brasil, ou seja, já há uma mistura aí”, explica Cynthia Mariah, estilista e coordenadora de pesquisas da ANAMAB (Associação Nacional de Moda Afro Brasileira).

A pesquisadora declara não considerar errado o interesse de outros grupos pelos ícones da cultura afro, desde que não deixem o significado histórico das peças pra lá. “Quanto mais pessoas se interessarem pela nossa cultura, menos preconceito teremos. Contudo, utilizar a peça apenas por estar na moda não acrescenta nada a nossa causa de empoderamento”, acredita Cynthia. Confira:

 

Como você começou a pesquisar moda?

Eu trabalho com moda desde 2004, comecei com criação de roupas e acessórios. Logo percebi que as pessoas começaram a gostar das minhas roupas por que que eram diferentes e exclusivas.

 

Quando você começou a pesquisar moda afro?

Sou estilista e pesquiso sobre este assunto desde que eu comecei a trabalhar com moda. Hoje sou coordenadora de pesquisa de estudos da ANAMAB. Lá, pesquisamos tanto o crescimento deste mercado quanto seu desenvolvimento histórico no Brasil.

 

Porque essa segmentação da moda é necessária?

É necessária para resgatar os elementos culturais do afro-brasileiro, mas o resultado das criações é variado, depende sempre do olhar do estilista. Eu, por exemplo, exploro mais a simbologia ancestral, trabalho muito com bordados, detalhes artesanais e fujo um pouquinho dos tecidos africanos, pois acho que a moda afro-brasileira carrega muito mais do que só esses tecidos, já que conta também com a influência cultural de outros povos, como os indígenas e os europeus, em sua constituição.

 

Qual a sua opinião acerca do debate sobre o empoderamento versus apropriação cultural da moda afro?

Percebo que a mulher afro é muito mais independente hoje e vem reassumindo seu papel na sociedade, que lhe foi tirado no passado. Hoje vemos mulheres negras na televisão, apresentando um telejornal, usando um turbante ou acessórios afro. Isso é um indicador de empoderamento da mulher negra.

 

Mas em relação à apropriação?

Depende do seu ponto de vista. Eu acho que a diversidade está aí e devemos nos apropriar dela, inclusive porque somos um povo miscigenado. Quanto mais difundidas as culturas forem, menos preconceito teremos. Contudo, é importante que as pessoas conheçam o significado histórico das peças, do contrário, seu uso se esvazia de sentido e não reflete empoderamento algum.

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