Chema Paz Gago

Chema Paz Gago

O #ModaInfo conversou com o escritor galego Chema Paz Gago, 46, autor do livro Moda e Sedução, sobre o eixo principal da sua obra, que reverencia a moda como a Oitava Arte, defendendo-a como expressão artística assim como o são o teatro, a música e a literatura, sua área de atuação.

Nele, Chema, que é poeta, semioticista e professor titular na Universidade de Corunha, na Espanha, empresta seu olhar romântico para a moda assim como o fez em suas publicações anteriores, Manual para Namorar Princesas (2005), Guia de Lugares Inexistentes (2011) e Wha(ts)appa: Piropoemas para mensagens de celular (2013), e desafia, na articulação de uma ampla rede de referências, a semiótica clássica em prol da faceta artística da moda, que também é mercado, tecnologia e cultura.

Ao apresentar o histórico arrebatador da moda como expoente da beleza, seduz o leitor enquanto ele mesmo segue sua narrativa seduzido pelo que é interdito no discurso vestimentar, com o deslumbre característico do imaginário poético, numa viagem que começa com seu relato da exposição da Armani do Museu Guggenheim de Bilbao em 2.000 e exalta os desfiles de Galliano e Lacroix como ícones de ressignificação da moda.

O livro foi lançado neste ano pela editora Estação das letras e Cores com prefácio da semioticista brasileira Lucia Santaella.

Confira a entrevista na íntegra:

Como começou seu interesse pela pesquisa da moda?
Eu sou semioticista e a moda é um sistema hipersemiotizado. Por outro lado, trabalho na Universidade da Corunha, cidade espanhola em que todas as marcas ligadas ao Grupo Inditex (detentor da Zara) estão situadas, logo, berço da maior indústria de distribuição de moda do mundo.
Em 2.000, a universidade lançou junto a esse grupo o curso de Master em Moda, Produção, Desenho e Comunicação, para o qual desenvolvi o módulo Moda e Comunicação e, além disso, leciono Literatura Comparada, pólo em que também tratei de desenvolver os estudos comparados da relação entre Moda, a Literatura e as Artes Visuais.

E o que te seduz na moda?
Penso que seguimos a moda para seduzir. O jogo de ocultar/mostrar a pele e o corpo na moda é o jogo da sedução. A moda é, definitivamente, o espaço da sedução, por isso nos fascina irremissivelmente.

O que te motiva a defender a moda como arte, considerando a indústria que ela constitui?
Apesar de o cinema também ser uma indústria poderosa, ninguém duvida que seja a Sétima Arte, por isso eu defendo a moda como Oitava Arte.
Gosto muito da comparação entre o cinema e a moda porque são expressões artísticas com muitos paralelismos. Nos anos 1970, dizia Christian Metz (1931-1993) que o cinema era uma linguagem que queria ser uma arte e uma arte que queria ser uma linguagem. A moda também é linguagem e arte, um fenômeno de comunicação estética e um sistema de expressão artística pleno.

Para você, que escreveu um manual para namorar princesas, qual é a leitura da moda para a mulher contemporânea? Ainda existem princesas?
Eu falo e escrevo para as princesas cotidianas, capazes de trabalhar, parir, amar, se sacrificar e gozar. Eu as vejo como seres superiores porque multiplicam o tempo, fazem mil coisas, educam as crianças, se desenvolvem em todos os campos profissionais e estão sempre elegantes, sedutoras e atentas à moda que as embeleza.
Elas são as princesas que eu quero namorar, de perfil lutador, trabalhador, fortes e sempre belas, pois a verdadeira beleza é a interior. Na minha poesia, jogo muito com as marcas de moda que eu admiro, mas sempre há uma distância irônica e humorística. Citarei alguns dos meus “piropoemas” (micropoemas) que transmitem essa mensagem precisa:

Mulher fashion/ eu descobri/ a beleza/ dentro de ti
Não deixes/ que Galliano/ oculte/ o encanto
A beleza/ está em ti/ Prada/ é só/ o complemento

Em relação ao seu livro de piropoemas, qual é o espaço para a comunicação de moda na era do microtexto?
A irreversível evolução das tecnologias da comunicação está revolucionando todos os campos da nossa sociedade pós-contemporânea, como tem analisado brilhantemente a semioticista brasileira Lucia Santaella, o que afeta especialmente a moda, que necessita de meios para difundir-se e virar tendência.
As redes sociais estão impondo a instantaneidade, o que talvez explique o porquê do Instagram ser a rede favorita dos fashion influencers. Eu penso que a “hiperbrevidade” exigida pelas redes digitais, num ritmo vertiginoso, impede a reflexão necessária sobre um fenômeno estético e artístico como a moda.

Alguma passagem da moda te marcou como espectador?
A primeira sequência do filme Breakfast at Tiffany’s (Bonequinha de Luxo) está gravada no imaginário de toda uma geração e, para um pesquisador de moda, é uma passagem icônica que revolucionou a silhueta feminina, provocando um fenômeno inédito até então: o petite robe noir da Givenchy sobre o corpo extremadamente delgado de Audrey Hepburn, que se transformou no vestido mais vendido, imitado e reproduzido da história.

Para mim, fica claro que a exposição em Bilbao constituiu um marco para você no entendimento de moda como arte, mas gostaria de compreender melhor a “ressemiotização da moda”, observada por você no trabalho de Galliano e Lacroix no livro.
Eu penso que as conclusões da sociologia e da semiótica clássicas da moda (Barthes, Baudrilard, Bourdieu, Lotman, Lipovetsky) são decepcionadas e decepcionantes. Basta citar a “decepção do sentido” na conclusão de O Sistema da Moda de Barthes, ideia que torna literalmente impossível uma visão semiótica da moda.
Eu proponho uma ressemiotização da moda que trabalhe seu devido potencial recorrendo às artes visuais, do significado recorrendo à interação com o corpo e do significante interpretando a função atual da marca como ícone de valor emocional.

 

Foto: Divulgação

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