Por Cacau Francisco

No começo do mês de março deste ano, quando a COVID-19 já assustava os brasileiros e mostrava a forma do governo em lidar com uma pandemia, muitas pessoas se aceleraram na proclamação de reflexões e pensamentos futuristas, em uma tentativa de adivinhar quais seriam os novos modos de consumo que surgiriam em meio à crise mundial de saúde, e como esses modos orientariam a produção e comercialização de produtos de moda dentro desse cenário. Esses esforços premonitórios eram, às vezes, como alegorias perversas bradando um “novo normal”, muito distante da realidade que o mundo estava vivendo: número de mortes aumentando, desemprego batendo à porta, economistas com previsões catastróficas – situações lamentáveis que, infelizmente, ainda estamos vivendo por aqui.

 

Outra ferida exposta pela COVID-19 foi o impacto econômico causado nas empresas brasileiras. Grandes ou pequenas, todas precisaram rebolar para tentar se manter atuantes dentro de um mercado tão competitivo como o setor de vestuário no Brasil. Ora, no começo das discussões sobre a pandemia no Brasil, ninguém pensava em comprar roupas para ficar em casa. Foi perceptível que todas as empresas que, de certo modo, estavam mais integradas ao universo digital e vinham demonstrando total domínio estratégico em todas as plataformas que atuam – redes sociais, mailing, e-commerce, delivery – saíram na frente.

Diego Ivo, CEO da empresa de consultoria Global Data afirma que “a pandemia acelerou fortemente os e-commerces e vai criar uma nova corrida pelas vendas on-line”. Em maio, segundo a jornalista Ilca Maria Estevão, duas empresas de moda figuravam no ranking de sites mais acessados do Brasil. A Dafiti apareceu em 11o lugar com 17,760 milhões de acessos, e a Riachuelo estava em 16o, com mais de 12 milhões de visitas.

Não é de hoje que o varejo eletrônico faz muito sucesso, mas esses números relacionados ao varejo de moda brasileiro são suficientes para nos dizer que há espaço para todos que desejam vender produtos de moda na Internet?

Faz parte do nosso imaginário a máxima de que os momentos de crise sempre funcionam como impulsionadores da criatividade humana. De certo a ação do ato criativo, quando voltada à solução de problemas, funciona como uma brecha, onde utilizamos o nosso repertório individual para sanar as angústias que se materializaram no embaraço que precisamos resolver, seja ele o desenvolvimento de uma coleção, ou simplesmente quando buscamos uma melhor forma de separar o lixo em nossas casas.

 

No pensamento de Ostrower, o trabalho criativo, seja na arte ou na ciência, carece de

estrutura, de método; “o homem elabora seu potencial criador através do trabalho” (OSTROWER, 1977, p. 29). Assim, é preciso olhar para o momento em que vivemos e encarar as oportunidades que surgem, unindo a criatividade que sobra nas marcas pequenas com o pensamento de gestão estratégica realizado pelas marcas grandes, para assim alavancar o volume de vendas como resultado de investimento em uma presença mais robusta no universo digital.

 

Em tempo, a Dacri Deviati, agência especializada em curadoria de informação, está captando recursos para a primeira semana de moda digital da América Latina: a Brazil Immersive Fashion Week será uma plataforma multicanal, em que marcas, designers independentes, artistas e consumidores podem cooperar criativamente por meio de uma narrativa 100% digital.

A criação dentro do universo das marcas de moda local pode se desdobrar através de um trabalho mais estratégico, porque ele traz em si a necessidade que gera as possíveis soluções criativas de modo mais global. Com esse pensamento, as pequenas marcas poderiam ir além do desenvolvimento de uma boa coleção, ou de um feed bonito no Instagram, conseguindo se tornar mais fortes dentro de um mercado tão feroz como o de moda no Brasil. Essa criatividade mais estratégica poderia potencializar o trabalho autoral e exclusivo dessas marcas com investimentos voltados para ações digitais, contribuindo para o fim de produtos incríveis que funcionam na passarela mas não são vendidos em lugar nenhum da rede.

Cacau Francisco
Designer Não-Artista. Pós-graduado em Estética e Gestão da Moda pela USP. Graduado em Design Moda pela Universidade Federal do Ceará. Trabalhou como estilista nas marcas Gente Inocente, Manotropo e Restoque. Na Hering, desenvolveu produtos para a marca infantil PUC. Docente do Senac Lapa Faustolo.

*Texto originalmente publicado em Jornal O Povo

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