Renan Serrano

Renan Serrano, em selfie para o #ModaInfo

Entrevistamos Renan Serrano, 27, estilista da Trendt, marca brasileira de moda tão low profile que não assina as próprias etiquetas das roupas, nas instalações de sua futura loja na sede da agência Flagcx (Av. Nações Unidas, 12.495, 16º andar), no Brooklin, zona sul de São Paulo.

Desde sua concepção, em 2010, a label se destaca pelas peças leves, em que a moulage, pences e os devorês funcionam tanto para homens quanto para mulheres. O designer não dá atenção para o rótulo genderless (agênero) e afirma que sua busca se concentra na essência humana, motivo pelo qual faz questão de conhecer o maior número de pessoas que se identificam com a sua marca.

Na contramão da correria do mercado, Renan lançou sua última coleção há dois anos e acredita que seus clientes continuarão usando-a por muito tempo, dada a neutralidade das peças. Mas sua “preocupação com o eterno” explica seu cuidado com o presente, como revela o designer, que planeja lançar apenas uma peça por mês a partir de janeiro. “Quero ter tempo de estudar cada passo do desenvolvimento dos meus produtos e trabalhar com amor”, afirma.

A desaceleração em seu modelo de negócio para 2016, que também prevê a produção de apenas 25% do realizado em 2015, vai possibilitar que ele não tenha mais residência fixa, projeto por meio do qual pretende conhecer o mundo com a sua família, cujo primeiro destino é o Chile. “Não estou preocupado em traçar um roteiro agora, vou chegar nas cidades e compreender como o meu negócio pode auxiliar as comunidades. Eu quero é trabalhar apenas com gente apaixonada pelo que faz, o resto é consequência”, afirma.

Confira a entrevista na íntegra:

 

Qual o significado da palavra Trendt?

O nome da marca remonta ao início da minha carreira, em que meu foco era a compreensão de tendências para t-shirts. Mais tarde, por sugestão de uma consultoria de branding, juntamos as duas palavras e a marca tomou contorno de nome próprio.

 

Collection 8. Trendt

Collection 8. Trendt

Você se incomoda com o rótulo genderless?

Não dou atenção para isso. Nenhum movimento estético me define, penso que se rotular hoje é colocar data de validade para a sua marca.

 

Quem veste Trendt?

Vejo que as pessoas que usam Trendt desejam transitar em diferentes meios com neutralidade e precisam estar uniformes no dia a dia, assim como eu, que sempre fugi de rótulos. Eu desenho roupas para quem não quer se rotular.

 

E isso te diverte?

Sim! Recentemente, participei de uma reunião formal e as pessoas pensavam que eu era um rockstar porque não conseguiam identificar a minha roupa. É isso o que eu quero, instigar as pessoas a decifrarem as minhas criações, já que não possuem repertório sobre elas.

 

Então você gosta de deixar as pessoas curiosas para se aproximarem de você?

Isso mesmo, se alguém não conseguir te “ler” apenas pelas roupas que você veste, precisará se aproximar de você para formular opinião. Eu vejo na prática como a quebra desse pré-julgamento humaniza as relações e é isso que vale a pena para mim.

 

Foi isso que te chamou a atenção na moda?

Meus pais tinham uma estamparia no Brás (bairro situado no centro de São Paulo) e me lembro de, aos 6 anos, participar de encontros deles com Tufi Duek e Gloria Coelho, mas sem pretensão alguma naquela época. Já adolescente, trabalhei na fábrica com eles e, tempos depois, entendi que a faculdade de moda era o mais responsável a fazer, já que eu gostava desse ambiente.

 

Você era bom aluno na faculdade? 

Eu era cdf, mas o ambiente da faculdade era pesado, havia muita cobrança (Renan cursou moda na FASM). Ficava frustrado quando criava algo e meus professores se preocupavam apenas em relacionar meu trabalho com o de outros estilistas, não sobrava espaço para criação.

 

Collection 7. Trendt

Collection 7. Trendt

E quando você ficou seguro para lançar sua marca?

Durante a minha monografia eu explorei o meu processo criativo, quis entender como a minha cabeça funciona para me sentir seguro para lançar uma marca. Além disso, o retorno dos desfiles que fiz na Casa de Criadores me mostrou que eu estava conquistando meu espaço.

 

Por onde começa seu processo criativo?

O tempo todo eu me questiono sobre o porquê das coisas, eu vejo gente reproduzindo comportamento sem ter propósito algum e confesso que sou exigente em relação a isso. Eu penso na funcionalidade das roupas, por exemplo, as novas peças já vêm com tecido antibacteriano, o que possibilita sua utilização por três dias seguidos sem adição de odor e, consequentemente, economiza-se muita água. Já a modelagem é a parte mais cara da Trendt, porque se eu partir de algo já existente, não me sinto seguro. Procuro equilíbrio entre inteligência visual, estética e filosófica.

 

Algum estilista te inspirou a encontrar seu caminho?

Eu não me inspiro na moda para criar. Isso é muito louco, porque eu assisto a todos os desfiles de moda para me informar e, nesse processo, confesso que dá vontade de repetir muita coisa que eu gosto, mas entendi que para ser autêntico é necessário conhecer e respeitar o trabalho alheio. Sou fã do Joseph Beuys (performer alemão) e acredito que, tal qual a performance, meu trabalho responde ao estímulo do público.

 

E como aconteceu a aposta masculina na sua modelagem? O brasileiro está abrindo mão do estigma de machão?

Hoje, cerca de 60% dos meus clientes são masculinos. Penso que a internet está trazendo muita informação sobre outras culturas e, principalmente, as pessoas perceberam que ser machista significa retroceder.

 

Quantas peças você possui no seu guarda-roupa?

Menos de 20, sendo pelo menos 3 peças iguais de cada modelo, todas da minha marca.

 

Não é tão fácil encontrar informação sobre a sua marca, né? Isso é proposital?

Sim, penso que, quanto mais portas abertas, mais vaga é a mensagem para o público. Eu respondo direto às perguntas dos clientes da marca, e, a partir desse contato, os clientes se transformam em colaboradores. É o boca a boca que faz o meu sucesso.

Collection 8. Trendt

Collection 8. Trendt

 

Fotos: Divulgação

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