Índice de transparência na moda de autoria do Fashion Revolution propõe repensar valores da cadeia

A cada 30 minutos, um fazendeiro se mata na Índia, intoxicado pelos pesticidas utilizados nas plantações de algodão. O cultivo em larga escala da planta, cujo produto é uma das principais matérias-primas na indústria da moda, é também responsável pela disseminação de 16% dos agrotóxicos ao redor do mundo. E a conta não para por aí.

À primeira vista, dados como esses, divulgados no documentário The True Cost (2015), causam estranhamento em quem se atém apenas aos números fabulosos de uma das mais importantes indústrias do mundo, que em 2016 faturou cerca de US$2,4 trilhões e dão indícios sobre a distância entre o consumidor final e o segmento que confecciona sua segunda pele.

De olho no desenvolvimento do trade desde 2013, a ONG Fashion Revolution vem rastreando suas iniciativas rumo à sustentabilidade. Uma questão que deveria ser prioritária para um meio que hoje é responsável por cerca de 20% da poluição industrial da água no mundo no tratamento e tingimento de tecidos, de acordo com a organização, mas que ainda trilha seus primeiros passos na agenda empresarial.

O resultado desse trabalho pode ser analisado no lançamento da versão em português do Índice de Transparência da Moda 2017, divulgada por aqui durante o BEFW (Brasil Eco Fashion Week), que categoriza a disponibilidade de indicadores sustentáveis de 100 marcas de moda ao redor do mundo, bem como seu comprometimento com o desenvolvimento do setor, classificando-as em escalas de 0 a 250 pontos.

Como critério de seleção, o Fashion Revolution analisou dados públicos sobre políticas e compromissos, governança, rastreabilidade, comunicação e resolução de problemas de empresas de moda com retorno atual superior a US$1,2 bi, que toparam participar voluntariamente do trabalho e fazem parte do mix dos segmentos do mercado na Europa, Ásia e América, como os grupos Kering, Inditex e Nike, além das brasileiras Renner e Pernambucanas.

Apesar da apuração focar em grandes companhias, a média da pontuação ficou em 20%, caso da Renner, Louis Vuitton e Victoria’s Secret, que corresponde à divulgação de suas políticas, alguns procedimentos e informações sobre suas avaliações de fornecedor e processos de remediação.

A Pernambucanas está na lanterninha do relatório, entre 0 e 10%, com marcas como Amazon, Ralph Lauren e Dior, o que significa que não divulga informações ao público, apenas algumas políticas que tendem a ser relacionadas às práticas de contratação de funcionários ou compromisso com a comunidade local.

Mais do que informar quais marcas atuam em direção à transparência, o estudo do Fashion Revolution chama a atenção para o quão pouco se sabe sobre a pegada sustentável das roupas que vestimos e serve de alerta para a escolha da compra como um ato político, retornando à pergunta principal do movimento: #QuemFezSuasRoupas?

 

Visibilizar é preciso

A necessidade de transparência se confirma como uma tendência nesse mercado, aparecendo por aqui em iniciativas como o portal Moda Limpa, que funciona como uma agenda de “fornecedores do bem” checados pela própria comunidade de usuários, cuja premissa colaborativa dialoga com a iniciativa da consultoria inglesa A Transparent Company, que rastreia todo o ciclo de pré, trans e pós consumo das roupas por protocolos de blockchain.

Outa boa pedida de transparência para o mercado nacional é o aplicativo gratuito Moda Livre, desenvolvido pela sucursal brasileira do Fashion Revolution em parceria com a ONG Repórter Brasil, voltada à divulgação de empresas que utilizam mão-de-obra escrava na produção de roupas em nosso país e serve de recorte para o seu estado atual; das 101 marcas auditadas, 49 tiveram a pior avaliação.

A demanda crescente por informações, estimulada principalmente pelos depoimentos de usuários em redes sociais, coloca a transparência como um diferencial competitivo na geração de valor capaz de influenciar um dos poderes do coletivo que sustentam o capitalismo, o de consumo.

Confira o Índice de Transparência do Fashion Revolution em português.

Foto: Fotosite

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