Artista resgata seus quase 50 anos de carreira em mostra no Instituto Tomie Ohtake

 

MISTY AND JIMMY PAULETTE IN A TAXI (1991) / REPRODUÇÃO

Misty and Jimmy Paulette in a taxi (1991) / reprodução

Ontem à noite, o saguão do Instituto Tomie Ohtake ficou pequeno para as mais de 400 pessoas presentes no talk da fotógrafa norte-americana Nancy Goldin. Boa parte teve de se sentar no chão ou assistir ao encontro do mezanino, em pé, para ouvir as histórias da artista que imortalizou o florescimento da cena LGBTQ+ em Nova Iorque na efervescente década de 70, muito antes dessas definições de gênero existirem.

Convidada pela organização para falar sobre seus quase 50 anos de carreira, Nan comentou o processo criativo por trás de dois trabalhos aclamados pela crítica, os livros A Balada da Dependência Sexual, de 1986, e O Outro Lado, de 1993, além de apresentar uma sessão de fotos feita por ela na década de 90 na extinta boate paulistana Alôca.

Imagem: Jimmy Paulette and Tabboo! undressing, Nan Goldin, 1991, NYC

Jimmy Paulette and Tabboo! undressing, Nan Goldin, 1991, NYC/ reprodução

Reconhecida pelo teor autobiográfico de seu trabalho, marcado pela transgressão, cumplicidade e veracidade, seus registros revelaram ao mundo o cotidiano da comunidade underground que a abraçou aos 14 anos no Lower East Side, bairro expoente da contracultura de Manhattan, influenciando a estética decadente da fotografia de moda dos anos 90.

A passagem de Nan pelo Brasil se faz oportuna em meio à onda recente de censura à visibilização artística de grupos marginalizados pela sociedade, que tem se desdobrado em episódios de violência virtual e física contra museus e teatros. “No início, todos se chamavam de drag queens, hoje, o termo que mais aprecio é o surgender (pessoa que se reconhece no seu gênero, mais também experimenta outros)”, avalia.

A própria Nancy foi vetada numa exposição do Balada que realizaria em 2011 no Rio de Janeiro, “meu trabalho foi censurado no Rio, seis anos atrás, porque continha registros de nudez entre pais e filhos menores. Não havia nenhum conteúdo sexual, mas a nudez estava presente, então fui acusada de pedofilia e censurada”, relembra.

A maioria dos personagens das fotos eram seus amigos e já morreram em consequência de drogas, violência ou depressão. “A fotografia me conduziu ao mundo que eu queria pertencer, não era nada profissional no início. Eu apenas tirava fotos de pessoas que confiavam em mim, esse tem sido o segredo do meu trabalho até hoje”, reflete ela, que recentemente tem preferido fotografar paisagens, “registrar o céu te dá a dimensão do seu lugar no mundo, é bem diferente de ficar trancado em seu estúdio”, encerra.

 

Fotos: divulgação

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