por Cacau Francisco

Quando buscamos relacionar dois universos distintos, é preciso fazer um exercício de apresentá-los um ao outro, e posteriormente perceber quais enclaves se dão nessa relação provocada pelo reconhecimento mútuo. Talvez, moda e música, por serem territórios intimamente ligados, já nos façam querer apertar o play e nos deliciarmos nas visualidades importantes que surgiram por meio da união desses dois universos. Como diria David Bowie: let’s dance!  

É difícil abarcar todos os encontros históricos quando pensamos na relação entre moda e a indústria da música. Talvez sejamos catapultados para diversos universos estéticos que se intercambiam durante a história. Do movimento punk, capturado pela estilista Viviane Westwood, que nos anos 1970 desenhava figurinos da banda punk Sex Pistols, ou as discotecagens do famoso Studio 54, em que os paetês da Halston embrulhavam ícones da moda e da música, como Grace Jones, Bianca Jaegger e Liza Minelli.

Anos 1990 e a MTV no Brasil

Mas é, possivelmente, na década de 1990 que esse enlace entre moda e música se dá de modo mais pulsante. Pois a informação de moda amplia-se, atingindo um número maior de pessoas simultaneamente e incluindo culturas e classes sociais que, até então, vinham funcionando à margem dessa máquina. Façanha (1999) considera a chegada da emissora MTV Brasil, um marco na criação de imagem para mídias. Os jovens daquela geração foram bombardeados diariamente por produções audiovisuais gigantescas, que embalavam sucessos musicais e estilísticos de artistas como Michael Jackson, Madonna, Nirvana e Spice Girls. A linguagem dos videoclipes e a imagem artística dos VJs, das pop stars e das bandas de rock popularizaram um novo visual radical, ao mesmo tempo sedutor e sonhador.

O agora

Com um salto temporal, no estilo twist carpado, gostaria de compartilhar alguns projetos de produção de imagem para artistas da nova geração da música brasileira. Pode entrar Yma, Siso, Cais e Getúlio Abelha!

Para a construção da capa e fotografias do single de White Peacock, da cantora Yma, o universo dramático do cinema noir foi misturado à personagem de Liza Minelli, em Cabaret (1972). Já no trabalho desenvolvido para o cantor Siso, as louças, os utensílios domésticos, e as cerâmicas encontradas aos destroços em museus e ruas de Lisboa se misturam às icônicas louças produzidas na cidade de Monte Sião, em Minas Gerais, para dar vida ao disco do cantor e compositor mineiro que busca nas próprias vivências e destroços pessoais a inspiração para fazer sua música. 

Nas imagens criadas para o duo Cais, composto por Fábio Lamounier e Pedro Tavares, e também no retrato do cantor Getúlio Abelha, conseguimos observar links mais diretos com o universo da moda, pois as peças utilizadas em ambos momentos se relacionam com estéticas mais próximas às linguagens promovidas pela moda no contemporâneo. No clipe de Naufrágio do Cais, a linguagem guccification é conquistada com a mistura de peças do Brechó Realindo Acervo e roupas hipercoloridas da marca Plágio. Na capa do cantor Getúlio Abelha, para a sessão de música e lifestyle da revista Harper’s Bazaar, esse encontro com a moda é proporcionado pelo uso de uma atmosfera vestível, que flerta com a frivolidade e a exuberância, tão presentes em desfiles atuais como nas últimas passarelas das marcas Prada, Gucci e Kenzo.

As potências que se dão nos encontros entre profissionais da música e da moda são terrenos abertos à exploração, ao encantamento e à comunhão de novas narrativas estéticas, mesmo que como visto anteriormente, isso não seja algo tão novo. No Brasil, os trabalhos desenvolvidos por profissionais de moda para artistas como Anitta, em Girl from Rio, para Mc Tha, em Rito de Passá, e para Duda Beat, em Te Amo lá Fora, comprovam que essa relação é um campo fértil para experimentação de novos modos de fazer imagem na indústria da música.

Nossa playlist acabou, nem deu tempo de falar dos fenômenos que são ícones internacionalmente reconhecidos pelos seus trabalhos com música e que se tornaram grandes diretores criativos de suas marcas, como Kayne West, na Yeezy, Rihana, na Fenty, que está em pausa, e Beyoncé, com a sua aclamada Ivy Park, que em sua última parceria com a Adidas teve as peças esgotadas rapidamente em diversas partes do mundo.
Mas isso é assunto para o lado B do nosso disco, ou quem sabe uma nova playlist.

Cacau Francisco é graduado em Design de Moda pela Universidade Federal do Ceará com especialização em Estética e Gestão da Moda pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. Atualmente, cursa o mestrado em Têxtil e Moda pela Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo. Trabalhou como estilista nas marcas Gente Inocente, Manotropo, Restoque S.A  e Cia. Hering. 
Transita entre os papéis de estilista, pesquisador, docente, figurinista, produtor, designer gráfico e diretor de arte. Atualmente é professor de produção de moda, estamparia digital e desenvolvimento de produto no Senac Lapa Faustolo.

@cacaufrancisco
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