Discussão latente na sociedade, o feminismo vem moldando as imagens criadas pela publicidade

Celebrado mundialmente há mais de 45 anos, o Dia Internacional da Mulher tem reverberado nas ruas e na internet com cada vez mais força nos últimos anos por conta das reivindicações sociais por igualdade de direitos. O que antes era lembrado como uma data para se ganhar flores e bombons, hoje retoma seu propósito inicial de conscientização de um propósito perene na sociedade, o feminismo.

Não por acaso, a tolerância social com a reprodução de imagens racistas, excludentes ou que objetificam a figura feminina tem diminuído ao redor do mundo, haja vista o esforço que indústrias tradicionalmente vinculadas ao comportamento machista, como a de bebidas e de automóveis, vêm fazendo para se reposicionar nessa seara.

“Eu crio campanhas para cerveja há mais de 15 anos e, durante muito tempo, sempre quando começava um novo brainstorm, girava uma chave na minha cabeça para pensar como um homem padrão”, lamenta Keka Morelle, diretora da Almap/BBDO, durante o encontro sobre Branded Content promovido no Senac SP esta semana, que hoje reposiciona uma marca de cervejas popular sem recorrer à tradicional esteriotipação da mulher.

Joyce Prestes, do Think Eva

Pois é, se tem uma coisa positiva sobre a ideologia de mercado é que, quando a oferta não condiz com a demanda, ela age. E parece que os consumidores têm aprendido a investir seu dinheiro em marcas que os representem. “Hoje no Brasil, 40% dos lares são sustentados por mulheres, se a sua marca não dialogar com elas, se arrisca a perder quase a metade das chances de vender”, alerta Joyce Prestes, gerente de estratégia da agência Think Eva, especializada em publicidade para o público feminino.

Joyce participará da Resenha Fashionwash do próximo #ModaInfo ao lado da Marina Colerato, do Modefica, para decodificar os caminhos de engajamento das causas sociais na moda e na publicidade, uma tendência que responde à conscientização das pessoas sobre o lugar de fala, que de acordo com ela, deve ser encarado como um compromisso inegociável das marcas com a sociedade.

“Não há opção de não tomar partido. A partir do momento que você seleciona apenas mulheres brancas para o seu casting, você já fez uma escolha racista. Quando você só elege mulheres magras, você já está dizendo que os outros corpos estão fora do padrão. Quem já despertou para a nossa diversidade está saindo na frente em termos de conquista de mercado”, explica.

Ainda assim, há um longo caminho a percorrer para que a cultura do machismo seja deixada para trás em nossa sociedade. De acordo com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, uma mulher é assassinada a cada duas horas no Brasil, taxa de 4,3 mortes para cada grupo de 100 mil pessoas do sexo feminino. Detalhe que o feminicídio só passou a ser reconhecido pela lei como crime hediondo em 2015, ano da chamada Primavera Feminista.

Ainda, se considerarmos o último relatório da Organização Mundial da Saúde, o Brasil ocuparia a 7ª posição entre as nações mais violentas para as mulheres de um total de 83 países. “Não se pode dissociar a responsabilidade sobre as imagens machistas reproduzidas no mercado e os casos de abuso e assédio nas ruas. Por isso me incomoda o chavão ‘O Futuro é Feminino’, que legitima essa discussão para depois. O momento de agir é agora, se nada for feito hoje, o amanhã não será diferente“, encerra Joyce.

Fotos: Marcella Ferrari Boscolo

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