Faz tempo que a moda deixou dar conta de todos os questionamentos de Fause Haten, 47, estilista renomado que há tempos atua em várias frentes como artista, mas é irresistível a associação da performance Cem Peitos, executada por ele em 27/7, na abertura da exposição #Movimenta2, a uma revanche do feminino sobre a figura icônica do estilista, disseminador de tendências de moda.

Nela, Fause escreve em cena o personagem Lili Marlene, que está desenvolvendo para sua peça homônima. “O desfile realizado em abril na SPFW foi o start desse projeto, que vai culminar na peça de teatro. Lili é um ator transformista que encena a atriz alemã Marlene Dietrich nos palcos”, explica.

Para viver Lili, Fause despe as formas femininas do jogo de mostra/ esconde proposto pela roupa e as veste como uma segunda pele para reconstruir seu próprio corpo, trazendo para si a experiência do peso, físico e metafórico, de sentir o feminino.

Fause Haten, durante performance Cem Peitos

Fause Haten, durante performance Cem Peitos

Fause Haten, durante performance Cem Peitos

 

Ao passo que ele veste mais e mais próteses, emociona o público ao chegar no seu limite e, quando finalmente se liberta delas, exibe sua pele (de)marcada, em mais uma alusão ao flagelo do corpo feminino. Confira a entrevista dada por ele ao #ModaInfo logo após a performance:

 

Você disse que a performance não tem ligação com a sua carreira de estilista. Cite uma referência feminina forte pra você.
A Marlene Dietrich, só que mais velha, nos anos 1970. Vejo uma mulher sexy e interessante.

Qual é a história da peça Lili Marlene um Risco?
Ela é baseada em abusos de todos os tipos. Há a personagem Lili, um ator transformista que vive a Marlene Dietrich nos palcos e, em meio ao processo de escrita, surgiu a vontade de saber como é sentir o feminino no corpo de um homem.
Assim, comecei a construir esse personagem no meu próprio corpo e, ao iniciar a criação do figurino, surgiu a necessidade de materializar o peso do feminino nos dias atuais, em que discutimos o feminismo e os direitos dos LGBT.

Quando você começou a buscar o peso do feminino, por que escolheu usar as próteses de seios e barriga sustentado-se em saltos altos?
É bem simples, eu queria sentir esse peso de verdade no meu corpo. Inicialmente, eu tinha uma imagem na cabeça, mas nenhum questionamento. Ao vestir as próteses, eu tive de lidar com o peso, minha postura mudou e eu comecei a construir a performance.

Há mais algum motivo para a escolha de vestir tantos seios? Porque geralmente essa parte do corpo fica sob fendas, e você a expôs…
Não, eu tenho várias imagens de seios femininos e queria o exagero. Tenho facilidade de trabalhar com linha e agulha e prefiro sempre fazer a peça em mim ao invés de ilustrá-la numa tela.

Como você se sentiu na pele de uma mulher?
Hoje eu não consigo te dizer o que estou sentindo, talvez daqui a um mês eu possa te responder isso. Quando eu faço as performances eu tenho de entrar limpo, é intuitivo.

Você disse que a linha e a agulha são seu ponto de partida para a criação. Quando você percebeu que a moda já não dava conta dela?
Faz tempo. Desde 2006, quando eu ingressei no teatro, iniciei uma trajetória que não cabia no mundo da moda. Eu adoro fazer roupas, mas não gosto mais do que virou esse mundo.

Por quê?
Me incomoda a necessidade de convencer as pessoas a comprarem novas roupas apenas para sustentar essa indústria. Gosto muito de fazer desfile e, hoje, o acho mais interessante do que o fazer da própria coleção.

E o seu último desfile? Como foi?
Vou ser bem sincero, foi o primeiro que não me deixou feliz. Eu senti que estava no lugar errado, que minha obra teatral estava sendo filmada e experienciada por pessoas despreparadas para viver aquilo.

Mas eram todos convidados, né?
Sim, mas vou dar um exemplo, eu tinha certeza de que os manequins deveriam ser fotografados de longe, à meia luz. Já os fotógrafos insistiram para focar apenas nos detalhes das roupas. Até hoje não consigo olhar as fotos desse desfile, elas perderam a poesia.

Sendo assim, você ainda pensa em um próximo desfile?
Tenho milhões de ideias, mas não sei quando as executarei. Dessa vez, até perguntei para o Paulo Borges se ainda fazia sentido eu fazer parte da SPFW.

Você não se sente mais parte da SPFW?
Acredito que a partir do momento em que se está na discussão, você faz parte. E eu sempre abro novas discussões.
Mas é engraçado como eu, que sempre fui o esquisito, agora sou o visionário. As pessoas vêm me lembrar que há tempos eu já não desfilava coleções de inverno e verão, por exemplo, nem segregava coleções por gênero.

Ao que você credita isso?
Penso que o mundo precisa mudar, apesar de a indústria tentar frear a mudança. A molecada já sabe disso, se você andar na rua, o mais legal que tem pra ver é quem nega a moda. Digo a moda convencional, já que o que eles fazem também é moda, né.
A indústria faz de conta que nada está acontecendo, mas, hoje, o mais interessante é a negação da moda, da estética, dos padrões, da cirurgia plástica… tudo isso faz surgir a nova beleza, que antes era desprezada.

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