Conversamos com a artista sobre suas inspirações, estilo e resistência

Linn da Quebrada

Bixa, preta, louca e favelada. É assim que a cantora paulistana Linn da Quebrada se apresenta no single Bixa Preta, um dos principais hits do seu bem sucedido álbum de estreia Pajubá (2017), uma homenagem ao dialeto TLGB, responsável pela façanha de, finalmente, alçar uma travesti artivista ao showbusiness brasileiro.

Dona de uma estética intrigante que, a exemplo dos seus trocadilhos, carrega elementos de sedução e afronta para subverter as definições conhecidas sobre corpo e linguagem, Linn talvez tenha sido para o mainstream a primeira oportunidade de contemplar a figura artística de uma travesti para além do estigma de marginal imposto pela sociedade, e, portanto, um aprendizado sobre lugar de fala.

Tal qual uma esfinge pós-moderna que devora os que não conseguem decifrá-la, Linn faz da sua arte despudorada um espaço para as narrativas das suas vivências e desejos, muitas vezes ao lado por artistas do meio TLGB como Jup do Bairro, Gloria Groove e Liniker, em coro pela quebra da heteronormatividade, bandeira que já virou até verbo em outro hit da sua carreira, Enviadescer.

Sob essa perspectiva, nós do #ModaInfo acompanhamos com curiosidade o lançamento do documentário Bixa Travesty no início deste ano, protagonizado por ela, por conta do qual a artista voltou do Festival de Cinema de Berlim com um prêmio nas mãos e fez pequenas turnês na Europa.

Desde então, ficamos tentando entrevistá-la, sem no entanto termos sucesso. “A Linn não dá quase entrevistas porque gosta de pensar bastante a respeito de cada declaração sua”, nos dizia sua assessora Izabela Costa, logo após nos convidar para assistir ao seu show performático de retorno ao Brasil no final de março, no Sesc Belenzinho.

Dadas as nossas infrutíferas investidas, deixamos a entrevista de lado para que acontecesse um dia naturalmente. Eis que esse dia chegou às vésperas das eleições presidenciais, nos corredores do SPFW N46 (São Paulo Fashion Week), em que a conhecemos pessoalmente e, por trás das suas pupilas ocultas por lentes alienígenas, chegamos perto de uma faceta gentil e introspectiva da artista sem papas na língua, que concordou em responder apenas o que achava pertinente ao momento de folga.

“Eu preciso me preparar para falar, pois dependendo do assunto, aqui não é o lugar pra te dar uma entrevista”, disse a Linn, claramente ressabiada sobre o nosso pedido, um desconforto que foi passando enquanto a acompanhávamos pelo saguão do evento dividindo com ela a mesma xícara de café até para, enfim, se transformar na conversa saborosa a seguir.

 

1. Quais as suas inspirações para compor seu estilo?
As minhas inspirações vem de pessoas que estão próximas a mim. No meu núcleo tem diversas pessoas que atuam e trabalham com moda, como os criativos do @estileras, @rainhafavelada, @carneirogs, @cemfreio, @limtrf. Acho muito interessante pessoas que vem atuando na moda de modo totalmente transversal com suas vidas e seus corpos no dia a dia, não necessariamente na passarela e em outros meios mainstream. Elas trazem coisas que estão próximos, como as travas e as pessoas mais próximas a mim.

 

2. E o que você tem ouvido ultimamente?
Mauricio Pereira, Letrux, Duda Beat, Flora Matos, Bamba Pana, de Uganda. Tenho tido diversas influências dos festivais que passei, e gosto muito de artistas que trabalham sons experimentais como Sophie e ARCA.

 

3. O que mais tem te chamado atenção nas suas viagens em turnê?
A nossa capacidade de criar pontes e nos fortalecer. De perceber a receptividade que o meu trabalho tem tido nesses outros lugares e da urgência que tudo que envolve nossos corpos, nossas vidas e a força que nós podemos formar juntas. A cada vez que tenho ido e voltado das viagens, sinto que estamos mais fortes, e vejo também um retrocesso em forma de medo que tenta nos fazer recuar, mas acredito que isso aconteça porque a nossa força assusta as pessoas que estão no poder.
Temos acesso a informação e utilizamos para produzir muitas coisas.

 

4. Você acredita que tem lançado tendências com sua arte?
A nossa tendência está na resistência, é uma tendência de vida. O meu estilo representa uma tendência de disputa de linguagem e de poder, acima de tudo, a disputa pelo meu corpo, para que eu não só possa escolher com quem eu vou ou não me deitar, o que ou não eu vou vestir, e principalmente quais são os laços, vínculos e pessoas pelos quais irei me fortalecer.

 

5. Você acha que a questão da representatividade no cenário nacional está num momento parecido com a do cenário internacional?
Acho que essa comparação não tem a ver. A cena TLGB traz uma transversalidade e de uma interseccionalidade de lutas, pois são muitos grupos que se percebem diferentes uns dos outros, mas ao mesmo tempo com muita coisa em comum. São feminismos, transfeminismos, tranfeminismos pretos… há diversas corporalidades. Mesmo que lá fora eles estejam vivendo um outro momento, nós conseguimos nos comunicar e encontrar pontos de semelhança no que fazemos. De alguma forma, é isso, apesar de sermos diferentes, temos muito em comum.

 

6. Com certeza, um grande ponto de seu trabalho é a criação dessas pontes.
Sim, a diferença aproxima.

 

7. Qual o seu próximo passo agora?
Eu gosto muito de pensar no presente, viver o presente, principalmente porque o trava-línguas (espetáculo performático em que ela se apresenta) tem sido construído com o público, nas apresentações e performances. Tenho aproveitado esse espaço para fazer experimentação e pesquisa para entender os próximos passos do meu trabalho.

 

 

Foto em destaque: Marcella Ferrari Boscolo/ demais fotos: divulgação

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