Detalhe do vestido construído a partir da técnica de feltragem para a última coleção da FY

Detalhe do vestido construído a partir da técnica de feltragem para a última coleção da FY

Peças da coleção produzida com as rendeiras com Cariri, na entrada da loja da marca

Peças da coleção produzida com as rendeiras com Cariri, na entrada da loja da marca

 

A estilista paulistana Fernanda Yamamoto, 37, recebeu o #ModaInfo em seu ateliê para a já tradicional visita guiada com sua equipe. Por lá, conferimos cada etapa do processo de confecção das peças, delicadíssimas, como um vestido de feltro, ou inusitadas, como uma saia de tiras de couro entrelaçadas, e, o mais interessante, conhecemos as pessoas envolvidas na confecção, algo que a designer considera essencial para compreensão do seu trabalho.

“Quero que as pessoas enxerguem além das peças da coleção, que percebam o modo como elas são feitas e, principalmente quem as fez. Isso é essencial para compreender minha proposta”, afirma Fernanda, que continua, “se as pessoas parassem para se questionar a respeito disso, a moda estaria num momento bem diferente do que está hoje”.

Envolvida em sua marca homônima há nove anos, Fernanda é reconhecida por sempre explorar o DNA brasileiro em suas criações, mas foi sua última coleção, inspirada na renda renascença e realizada com as rendeiras da ONG Cunhã Coletivo Feminista, no Cariri, que proporcionou à estilista uma reflexão sobre as relações humanas e ressignificou seu controle sobre o tempo. “Lá elas trabalham no ‘tempo do sertão’ e colocam muito da própria história no trabalho que executam, não tem nada a ver com a loucura em que vivemos”, declara.

Na contramão da correria que as mudanças do calendário da moda começam a impor sobre as marcas, Fernanda afirma que continuará apresentando em seu desfile peças conceito que apenas meses depois aparecerão em sua loja para venda. “Penso no desfile como um momento para apresentar a criação, não como uma oportunidade de despertar desejo imediato para compra”, afirma.

 

A coleção que você desenvolveu em parceria com as rendeiras do Cariri rendeu até documentário e você falou que mudou a sua vida. Como isso aconteceu?

Estar em contato com elas me trouxe série de reflexões acerca do valor do trabalho manual, que contém a história de quem o faz. As rendeiras trabalham em outro tempo, que não tem nada a ver com a loucura que a gente vive hoje. Trabalhar com elas me fez desacelerar o ritmo, além de buscar um significado maior no que eu faço.

 

E você se preocupa em conhecer todo mundo que está envolvido no processo de confecção das suas coleções?

Sim, penso que se a gente se preocupasse um pouco mais com isso, estaríamos num momento diferente na moda, porque hoje parece que as pessoas acham que a roupa sai pronta de uma máquina. Tem gente que até me questiona, “ai, como a sua roupa é cara”, mas não dá para comparar minha oferta com a da Zara, não sabemos que mãos realmente fizeram aquela roupa. É importante questionar nisso.

 

E, nesse ritmo, você avalia que foi positivo ter optado por desfilar sua coleção apenas uma vez ao ano?

Sim. Eu acho que foi uma das decisões mais assertivas para a minha marca.

 

Você comentou que para você o momento do desfile não está conectado com o da venda. O que você acha desse novo momento da São Paulo Fashion Week?

Não acho que vou entrar neste esquema, pois vejo o desfile como a oportunidade de apresentar todo o meu processo de criação, assim como uma exposição de arte, e mostro os conceitos de uma coleção na passarela sem desejar apenas a venda imediata. Eu preciso de um tempo para elaborar as peças comerciais depois do desfile.

 

E você planeja continuar desfilando na SPFW, mesmo não fazendo parte desse movimento “see now, buy now”?

Sim, mas no meu tempo. Eu acho que as marcas vão ter a liberdade de integrar esse movimento ou não, cada qual com o seu DNA e propósito. Talvez para a semana de moda faça mais sentido ser assim, já que muitas marcas são supercomerciais.

 

Pensando nisso, o desfile continua sendo importante para você apresentar suas coleções?

Sim. Para mostrar a marca, o trabalho e o processo criativo, porque fazer roupa só para vender não é o que me move. Então, como artista, penso que o desfile continua sendo o momento de realizar uma exposição, é ali que apresento todo o meu trabalho.

 

Você estuda algum novo formato para os próximos desfiles?

Sim. Eu estou pensando em um novo formato, mas dentro do calendário.

 

Tem algo que você pode contar para a gente?

Ainda não, só posso adiantar que vai ser diferente do esquema tradicional do desfile.

 

Nem o ponto de partida da sua inspiração?

Eu quero continuar com o trabalho manual, vou usar a renda de novo, mas de uma outra forma. Não acredito que devemos começar do zero em todas as coleções, para mim, tem de haver continuidade. Eu acho que o trabalho vai adquirindo solidez conforme a marca se aprofunda nele. É possível pesquisar mais e reinventar a renda, por exemplo.

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