por Ana Sudano

Levando em conta todo o impacto da pandemia na indústria de moda e de confecção, além de toda a crise cultural que nos cerca e sabendo que tais crises não devem parar por aqui, e por agora, diversas questões surgem na mente dos empreendedores de moda, e talvez a questão central que passa por nossas cabeças é: como se preparar para planejar e desenvolver uma coleção de moda neste cenário? O que o profissional e a marca devem considerar?

Sabemos que o sistema de produção está intimamente ligado ao sistema de vendas, e que uma coleção de moda é um conjunto de produtos, com harmonia do ponto de vista estético e/ou comercial, cuja fabricação e entrega são previstas para determinadas épocas do ano, alimentando todo o sistema de consumo, pertencimento e identificação pessoal dos clientes que alimentam os processos produtivos das marcas. Neste sentido, destaco para a nossa reflexão a frase a seguir de Gilles Lipovetsky, filósofo e observador deste mercado, presente no livro O Luxo Eterno – da Idade do Sagrado ao Tempo das Marcas:

“… Saber e saber fazer já não são, hoje, vantagens de concorrência

suficientes, torna-se imperativo para as marcas saber existir…”

Gilles Lipovetshy

Daí pergunto, o que seria este “saber existir” atualmente?

Não é uma resposta simples ou linear, pois criativos e gestores de moda vivem entre as demandas sociais e a oferta de produtos que buscam ter alguma relevância suficiente na vida das pessoas que compõem os públicos de interesse, para assim, quem sabe, despertar o desejo ou simplesmente atender às necessidades latentes, vencendo a concorrência e entregando algum valor através dos produtos desenvolvidos. Sabemos também que a moda é um campo amplo de saberes, com diversas formas de atuação, onde a constante é o investimento alto e de risco, o que traz ainda mais pressão para um desenvolvimento de coleção assertivo e eficiente. Sendo assim, um “bom produto” deve então atender a três aspectos básicos:

PRODUTIVO  (produção tecnicamente possível = escala)

MERCADOLÓGICO (aceitabilidade pelo público-alvo)

FINANCEIRO  (capacidade de promover retorno lucrativo do investimento)

E destaco aqui também, para as investigações internas, outros três tópicos vitais, que devem estar sempre muito claros para amparar esta jornada de decisões que cercam as equipes nos negócios de moda:

PERFIL DO CONSUMIDOR (quem alimenta seu negócio)

IDENTIDADE DA MARCA (refletida nas imagens hoje tão fundamentais)

TEMA DA COLEÇÃO (que ampara os argumentos de venda)

PROPOSTA DE CORES E MATERIAIS (investimento tangível)

Buscar sempre clareza nos processos internos, no alinhamento entre as equipes para auxiliar na tomada de decisões do melhor mix de produtos, pode ser um bom começo para responder às questões aqui levantadas. Lembrando que hoje é importante oferecer soluções e que qualquer canal de comunicação com o seu cliente pode ser, e é, uma grande oportunidade de negócios!

Para inspirar nas reflexões, destaco também um caso de sucesso na década de 1980, quando Donna Karan lançou o conceito das 7 easy pieces, ou as Sete Peças Fáceis. A ideia era simples: sete peças básicas e versáteis para o dia a dia de uma mulher moderna, compacta e com estilo, que eram entregues em uma única caixa, prelúdio unboxing*, onde o body era a base de tudo, podendo ser acompanhado por saia ou calça, um suéter de cashmere ou um blazer de malha, com a camisa e um foulard. Tudo fácil de usar, de transportar, de produzir e de vender, e é claro que foi um sucesso na época!

A partir daqui, retorno à pergunta inicial, para que juntos (aguardo comentários) possamos refletir sobre as perguntas certas, para trilhar caminhos onde as respostas certas se revelam nas ações realmente prósperas.

Planejamento e Desenvolvimento de Coleção: como fazer isso em 2021?

Minha sugestão hoje é: conheça verdadeiramente o seu negócio! Conheça verdadeiramente seu público de interesse e, a partir daí, estude os dados e possibilidades para criar suas próprias estratégias de sobrevivência.

A meta em 2021 é sobreviver!

Ana Sudano é Diretora Criativa, estilista e docente Senac Lapa Faustolo

*Unboxing: unboxing é um termo em inglês que se refere ao ato de desembalar novos produtos. O termo se tornou popular ao ser relacionado com o ato de filmar a abertura de caixas ou embalagens de produtos.

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