Delay do mainstream na celebração da diversidade do nosso país é sintoma de apego ao modelo colonial de pensamento

 

Entra ano, sai ano e novas polêmicas acerca do velho modo de construir imagens de moda incendeiam os ânimos do público dentro e fora das redes sociais, gerando um prejuízo reputacional imediato que segue corroendo o lastro social dos responsáveis até o surgimento da próxima discussão.

Se a pauta da exclusão vai de encontro às tendências da participação e da diversidade, por que é tão difícil ressignificar padrões de imagem que oprimam a diversidade no nosso país? O mainstream combinado com pluralidade não faz muito mais sentido?

Para o professor Denis de Oliveira, coordenador do Centro de Estudos Latino-Americanos sobre Cultura e Comunicação da USP, a principal dificuldade dos nossos profissionais em romper com padrões estéticos excludentes vem da manutenção das relações de poder concentradas na branquitude desde o início da colonização europeia que, ainda hoje, coloca nas mãos dela as tomadas de decisão.

“Essa estrutura preserva a perspectiva da existência do sujeito branco como soberana na sociedade”, explica Denis, que continua, “a ausência de diversidade na criação de imagens de moda e demais produtos culturais na nossa sociedade reflete, antes de tudo, o sistema desigual de oportunidades profissionais entre mulheres e homens, ampliado diante de recortes étnicos e de classe social, por exemplo”. Há, portanto, pouca representação em posições de tomada de decisão.

 

Tropicalizar x descentralizar

À herança de longa data desse sistema de castas herdado por nós da formação do Brasil como nação, somam-se a dezenas de publicações de moda “tropicalizadas” diretamente da Europa pelos conglomerados de comunicação locais, que já partem da perspectiva inicial estrangeira sobre o que é belo e o que vende, e explica em parte a resistência do trade inteiro em publicar conteúdo descentralizado no padrão magro caucasiano sem recorrer aos enganosos atalhos da transgressão ou da caridade.

“Como há o mito de que nosso país nunca foi racista, fica difícil estimular nas pessoas a percepção dos efeitos da segregação na sociedade e, consequentemente, seu viés colonial, algo fácil de constatar se observamos a postura subserviente do nosso governo atual aos Estados Unidos. Que nacionalismo é esse?”, questiona Denis.

De fato, num país em que mais de 50% da população se declara preta ou parda, não deveria existir cotas obrigatórias de 10% em castings reservadas a modelos afrodescendentes nos desfiles auditadas pelo ministério público nas semanas de moda do nosso país, historicamente carentes de modelos curvilíneas e gordas, muito mais próximas da realidade da mulher brasileira.

E não é de hoje que o mercado dá sinais de cansaço sobre esse padrão, haja vista o sucesso que trabalhos independentes como a Feira Preta e o Pop Plus fazem em cada nova edição, mas parece que, apesar do frisson do street style, o que chamamos de mainstream hoje não tem fôlego, interesse ou vontade de acompanhar o movimento real das ruas.

Nathalia Anjos, coordenadora de conteúdo do #ModaInfo, analisa que o modus operandi da indústria não muda enquanto ela não questionar os próprios valores e, nesse caso, falamos de um sistema forjado no seio da corte francesa para distinguir a nobreza da plebe, ainda no século 17.

 

Para desconstruir, é preciso ressignificar

“Desconstruir um padrão implica em renegar uma posição aceita por uma maioria, sair da zona de conforto. Não tem atalho pra isso, é preciso assmir e querer romper preconceitos, abrir a mente para outras fontes de conhecimento e estabelecer novas conexões cognitivas sobre o que entendemos como belo”.

Estudiosa sobre movimentos disruptivos e neurociência, Nathalia aponta a escuta ativa e empatia como algumas das principais ferramentas de ressignificação de processos criativos. “Se eu só converso com as mesmas pessoas todos os dias, sem me permitir novas opiniões, é impossível aprender coisas novas. Muitas vezes, é alguém totalmente diferente de você, ambientes diversos e alheios da sua rotina, que te darão insights para o outro, que nem sempre é novo, mas estava oculto”, explica a profissional.

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