Novos limites corporais são o alvo da experiência estética

 

Num mundo saturado de imagens perfeitamente editadas por celebridades e pessoas comuns para agradar aos padrões tradicionais de beleza, é crescente o interesse da moda pela sua transgressão, apoiando-se na releitura de figuras como monstros, aliens e demônios que, amparadas pelos ícones das grifes, despertam fascínio pelo estranho.

Desfile FW 19 da Gucci/ Fonte: Fashion Snoopss

Desfile FW 19 da Gucci/ Fonte: Fashion Snoopss

De olho nessa tendência, a Gucci estourou a bolha fashionista seis meses atrás ao eleger réplicas das cabeças dos modelos como acessórios macabros para arrematar o styling da coleção de inverno 19, declaradamente inspirado no Manifesto Ciborgue, da filósofa Donna Haraway, de 1984, que explora as transmutações corporais do sujeito pós-humano como uma possibilidade de reconstrução de identidade, tema explorado na pauta do #ModaInfo 1.18.

Não por acaso, tutoriais de “maquiagem protética” protagonizados por mulheres asiáticas fazem sucesso nas redes sociais. Se antes a moda era esculpir o rosto com técnicas de contorno, agora o grande barato é usar próteses para redefinir nariz, bochechas e até mesmo os olhos, como personagens de cinema.

Apesar do auê, a incorporação desses acessórios no dia a dia, contudo ainda está longe de virar hit. “Esse tipo de maquiagem funciona bem pro vídeo, mas, não para o dia a dia. Além de ser uma make pesada, as próteses ficam bem evidentes a olho nu”, avalia Dennis Dal Bello, docente de maquiagem cênica do Senac Lapa Faustolo.

Indo mais além, encontramos perfis incensados de artistas de aspecto alienígena, como o da dupla @matieresfecales, que já soma mais de 280 mil seguidores interessados nas construções imagéticas que desafiam as zonas de conforto corporal e estética, um verdadeiro exercício de transformar um objeto de repulsa em contemplação.

El maquillaje y la escultura

Pensaba que saber dibujar ayudaba el maquillaje, pero no sabía que ahora se necesita aprender escultura… (Vídeos de Douyin: @19566682, @588156491, @144869040, @97531977 y @633324433)

Publicado por Es China em Quarta-feira, 20 de junho de 2018

Still just an alien couple out and about

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Considerando o tempo que os olhos demoram para se acostumar com tudo que é novo, faz sentido que na era do filtro os designers estejam posicionando suas marcas pela perspectiva da provocação estética, cuja capacidade de apelo perante ao que já é aceito é sempre muito maior, estratégia percebida até mesmo na última semana de alta-costura, marcada pela subversão de valores entre o que é considerado belo e feio, nobre e vulgar.

Nada tão novo assim, uma vez que a temática do estranho já foi amplamente trabalhada pela moda na época do heroin chic, nos anos 1990, em que as figuras disruptivas do Marilyn Manson e da Bjork rompiam com o ideal helênico de beleza em prol do exercício da própria criatividade.

Em seu mais recente trabalho, Utopic (2017), Bjork inclusive revisitou o tema com a consultoria da drag-queen Hungry para compor seu personagem alienígena. Veja:

A questão é que, agora, temos acesso contínuo a tecnologias como a inteligência artificial e realidade estendida, que normatizam experiências até então impensáveis fora de roteiros de ficção científica e induzem novas conexões para a construção do nosso repertório, elevando os limites da criação, como no caso da couture high-tech da estilista Iris Van Herpen.

Por aqui, dois perfis de artistas visuais atuantes na linha de desconstrução estética merecem atenção. Um é o @EctoCorporation, que já performou na SP Arte com sua persona anjo-demoníaca, e @AunHelden, que se auto intitula verme e alimento para verme, e se apresentou recentemente na festa eletrônica ODD, em São Paulo.

https://www.instagram.com/p/BjGC5F2BcZ4/?taken-by=aunhelden

Anima Mundi

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Em ambos, o processo de caracterização faz parte da exteriorização da potência interior e não da criação de um personagem. “Quando me olho no espelho e vejo que o que existe na minha pele não é suficiente para o que tenho, faço da maquiagem uma máquina para transitar em todas as cores, formatos e texturas que quero ter”, explica Aun.

 

Imagem em destaque: Desfile de alta costura da Iris Van Herpen SS 18/ Fashion Snoops