Desconstrução de gênero está novamente em voga

 

Jaden Smith

Jaden Smith, em campanha para a Louis Vuitton/ Foto: Instagram @nicolasghesquiere/Bruce Weber

O anúncio do ator norte-americano Jaden Smith como novo rosto da coleção feminina da Louis Vuitton reativou o debate sobre gênero na moda, que não é novo, mas está cada vez mais em voga. Afinal de contas, até que ponto o sexo de alguém deve definir seu modo de vestir? Essa ruptura vem ao encontro do discurso gender-bender (além gênero, em tradução livre), cuja premissa é permitir escolhas individuais independentes das definições de masculino e feminino.

Coco Chanel, na década de 20, foi pioneira na área ao incluir calças, coletes e gravatas no guarda-roupa feminino, adequando-o às necessidades das mulheres, tema que ganhou o cinema na figura de Marlene Dietrich, primeira atriz a vestir calças em público, abrindo espaço para a tendência boyish, e conduziu a cultura pop na silhueta neon de Ziggy Stardust, personagem andrógino de David Bowie, que abusava de maquiagens, roupas justas e coloridas, itens associados ao gênero feminino à época, apenas para citar exemplos.

Ney Matogrosso/ Crédito: Divulgação

Ney Matogrosso, ícone da androginia no Brasil/ Crédito: Divulgação

Mas será que em 2016 será o ano marcado pelo gender-bender? Em dezembro, a Pantone cantou essa bola ao anunciar a dobradinha rose quartz e serenity como as cores de 2016, expressas pela marca como uma resposta à tendência de moda de distanciamento dos gêneros.

Ainda em 2015, vimos a Calvin Klein anunciar o CK2, seu primeiro perfume agênero, Caitlyn Jenner ser nomeada pela Glamour como mulher do ano e o sucesso da coleção Agender, da inglesa Selfridges, que não divide suas peças entre feminino e masculino.

 

Mercado Nacional

 

No Brasil, também vimos o tema nas passarelas, abordado por marcas como Ronaldo Fraga, Apartamento03 e Cozendey, além das labels genuinamente agênero, como Också, TrendtBen e Apolinário, fortemente orientadas nas experiências pessoais de seus criadores, cuja abordagem traz a proposta desconstrutivista dos estilistas japoneses dos anos 80 e belgas contemporâneos em seu DNA.

Ben/ Casa de Criadores- Inverno 2016/ Foto: Agência Fotosite

Ben/ Casa de Criadores- Inverno 2016/ Foto: Agência Fotosite

[ht_blockquote type=”no_bg” author=”Leandro Benites, estilista da Ben”]

“Talvez o que levou a Ben a naturalmente a se tornar genderless (agênero) foi a vontade de desconstruir, que não se limitava ao design da peça, mas também ao tipo de roupa que eu gostaria de vestir, como um vestido para mim, por exemplo. Eu estava doido para vestir essa peça, entretanto, não me imaginava usando um vestido feminino, pois queria algo mais complexo, que me caísse bem e criasse uma imagem minimal e austera, como as peças da Ben.”
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Já Deisi Witz e Igor Bastos, a dupla de designers da Också,trouxeram para a marca o costume de trocar roupas entre si frequentemente, “o ponto de partida do lançamento da marca foi Igor e eu trocarmos nossas roupas entre nós e percebermos que não necessariamente precisávamos categorizar nossas criações por gênero. Pensamos em modelagens e materiais que vistam bem tanto homens quanto mulheres”, afirma Deisi.

Victor Apolinário, criador da marca homônima, explica que a persona da label se contrói além dos gêneros. “Toda a concepção da marca está pautada na liberdade e fluidez, com o objetivo de transpor os limites de gênero, não os excluindo, mas abrindo novas perspectivas para o próprio corpo”, afirma o designer, que explica que sua proposta é diferente do unissex, “ao contrário do unissex, que cria uma modelagem comum para ambos os gêneros, o agênero não parte da anatomia masculina ou feminina para fomento ou criação”.

kimonos da Troos, segunda marca da Apolinário

kimonos da Troos, segunda marca da Apolinário

Mas, e quando essa tendência chega ao varejo? Para Renato Shibukawa, editor do Senac Moda Informação, a moda continuará fazendo sua oferta pautada no gênero. “Percebemos o gender-bender como um movimento de nicho, que atrai pessoas em busca de experimentação e rompimento de dogmas estéticos, mas mesmo as marcas que realizaram iniciativas recentes sobre o tema, como a Louis Vuitton, continuarão desenhando coleções femininas e masculinas por muito tempo”, afirma o consultor, que continua “apesar do varejo ter o timing mais demorado, a globalização acelerou demais os ciclos de experimentação do público e, portanto, devemos entender esse movimento como mais uma porta aberta para construção de uma marca”, finaliza.

 

Confira nossa seleção de looks gender-bender nas passarelas:

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