Mario Queiroz, estilista e professor da pós-graduação em Criação de Imagem e Styling de Moda no Senac Lapa Faustolo, conversou com o #ModaInfo sobre as rupturas nos padrões de moda na semana inaugural da exposição que homenageia vinte anos da sua marca no Centro Universitário Senac – Santo Amaro.

O termo ruptura, que também é o eixo central da mostra, celebra o olhar aguçado do estilista para a inovação na moda masculina desde o lançamento da label, em 95, época em que o segmento transitava entre o clássico e o sportwear e na qual ele fez história ao propor um guarda-roupa para homens ousados, que desejavam looks que o acompanhassem do trabalho à balada.

Desde então, o designer participou de Semanas de Moda no Brasil e no exterior, concluiu mestrado e doutorado. Hoje, atendendo já como alfaiataria sob medida, Mário viaja o Brasil inteiro para lecionar moda e prestar consultoria a empresas. Além disso, dirige também o projeto Homem Brasileiro, dedicado a discutir a relação do homem com a sua imagem.

Confira a entrevista na íntegra:

Como você fez a seleção dos looks para doação ao Acervo de Moda Senac?
Para o Acervo, fizemos a seleção das peças mais elaboradas, por conta da oportunidade de preservação dos trajes. No entanto, não houve uma preocupação em escolher as peças por ordem cronológica, o que foi bacana, pois ao final do desfile realizado no Senac com os looks que doamos à instituição, as pessoas perguntavam se eles eram recentes, o que mostra como o propósito da marca se mantém contemporâneo.

A maior parte das peças selecionadas foram confeccionadas em tecidos de cores escuras. Foi proposital?
Grande parte do acervo são looks de inverno, há muitos casacos, por exemplo. De fato, usamos cores mais sóbrias, como preto, cinza, roxo e verde escuro.

Você possui alguma cor favorita?
O preto era muito interessante para algumas histórias que contávamos com a marca, mas não havia uma preocupação com isso. Eu particularmente não tenho cor favorita, penso que estar sempre aberto a cores diferentes já significa uma ruptura na moda masculina.

De onde vem o conceito de ruptura e por que ela define sua marca?
Há duas décadas, quando começamos, as outras marcas masculinas se dividiam entre o clássico e o streetwear. Nossa proposta era criar um guarda-roupa casual para o homem que gostava de moda. Entendo que, diferente da transgressão, a ruptura não ultrapassa um limite cultural, o que faz da moda algo com o que você conviva. Apesar da nossa proposta autoral, nosso intuito era vestir o cliente do trabalho até a balada, possibilitando a ele que transitasse por diferentes meios.

E é justamente aí que as marcas estão inovando hoje, né?
Sim, nós vislumbramos um mercado lá atrás que está acontecendo agora. Há a oferta para quem deseja ousar, o que é muito bom. Hoje você já encontra camisetas longline, quase vestidos, na seção masculina de lojas de departamento. Por isso observamos também mais estudantes de moda interessados no segmento masculino.

Nesse sentido, você considera a oferta nas lojas de fast fashion uma ruptura também?
Sim, outro dia vi uma ilha de acessórios masculinos numa loja de fast fashion. Percebo que a oferta para estilos já acontece nesse nicho de mercado por aqui.

Então a nossa sociedade está rompendo com os padrões na moda?
Exato. Primeiro existe a questão política de diversidade, há a reivindicação do respeito e a vontade de se expressar, a moda faz parte disso. O que torna uma cidade como Londres ser tão interessante? Justamente a liberdade de expressão! Esse é o movimento original da moda.

Então estamos num momento melhor do que imaginamos hoje para a moda?
Eu acho que sim, muitas pessoas se acomodam no discurso da crise, mas, como alguém que já viu muitas crises neste país, digo que as pessoas que avançam são as que encaram as situações positivamente.

E em relação ao See Now Buy Now, também é uma ruptura ou mais um movimento comercial da SPFW?
Apesar de ser uma resposta à comunicação imediata que as redes sociais representam, eu acho esse conceito estranho. Já sabemos que há uma certa mentira nisso de comprar a peça imediatamente após o desfile, pois no caso das marcas estrangeiras que aderiram a esse movimento, a pessoa faz apenas a encomenda na hora e fica numa fila para receber o pedido depois.

E aqui no Brasil?
Por aqui a entrega imediata não depende apenas das marcas. Há a indústria têxtil por exemplo, que talvez não terá os tecidos à pronta-entrega, além disso, os trâmites de importação também não são imediatos. O que é verdade nessa história é que a criação de moda se libertou da sazonalidade, o que faz sentido para a realidade do nosso país, mas não dá pra confundir com o que a Europa pretende fazer.

Se o compromisso com as estações não faz sentido, então porque manter duas edições de desfiles ao ano?
Para mim, não se trata mais de lançar coleções novas, já que hoje é comum as marcas lançarem até seis coleções anuais, mas sim, realizar um grande fashion show. O problema atual das Semanas de Moda é que, se elas são se cuidam, elas deixam de ser uma semana de lançamentos e ficam presas às grandes indústrias.

Mas esse é o caminho, né?
Sim, mas a gente sabe que são os designers que mexem com o público e constroem uma imagem de moda forte nas fashion weeks, justamente por eles não terem compromisso com a quantidade. A autoralidade deles é o foco.

Falando sobre desfiles de moda, você pretende voltar a criar para a sua marca?
Eu não abri mão da Mario Queiroz totalmente, acontece que não tenho mais vontade de estar no varejo. Há algum tempo eu assino uma linha de joias para uma marca e também optei por fazer roupas sob medida no meu ateliê. Além disso, atuo como pesquisador, professor e realizo o projeto Homem Brasileiro, que discute o universo masculino. Gosto bastante de atuar nessas frentes.

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