“Nem algodão, nem couro. O tecido do futuro será feito à base de fungos, bactérias e algas”, acredita a designer Joy Pires, que estuda wearables há quase uma década e fez do estudo dos biomateriais sua pesquisa de mestrado em Moda e Têxtil, na USP.

Joy, que coordenou uma edição do SMI + sobre design de superfície têxteis em 2017, explica que a biofabricação vem movimentando pesquisas em indústrias poderosas, como a alimentícia e a farmacêutica, e que a moda pega carona com os biowearables em experimentações que diminuam a pegada ambiental dos processos produtivos da cadeia têxtil, uma dos mais poluentes do planeta.

“Os tecidos que conseguimos hoje nos laboratórios ainda estão em fase de aprimoramento, mas uma das vantagens deles sobre os convencionais é que seu cultivo não depende do desmatamento de florestas, nem do agronegócio, além de serem biodegradáveis”, avalia.

Motivos para a indústria investir nessas pesquisas não faltam.  O relatório divulgado em dezembro na conferência do clima da ONU aponta que, até 2050, os cerca de 9 bilhões de habitantes da Terra não poderão se alimentar com carne com frequência, pois não haverá quem a forneça em quantidade suficiente para a população. Inovar é questão de sobrevivência.

Stella McCartney X Bolt Threads at the V&A Museum

Last year, at our Summer 2018 runway show we unveiled a vegan silk with Bolt Threads. This year, as part of our ongoing partnership, we’re proud to introduce a world-first, a new bio-material with the tactility of leather without the associated cruelty – created from an underground root structure.Soft but tough and tanned using natural methods – we've created our iconic #Falabella out of this innovative material, Mylo Prototype 1. The world’s first modern leather grown from mycelium will be on display as part of the Victoria and Albert Museum's ‘Fashioned from Nature’ exhibition in London from this Saturday 21st April – 27 January 2019.#FashionedFromNature

Publicado por Stella McCartney em Quarta-feira, 18 de abril de 2018

Lá fora, há iniciativas interessantes nessa seara, também chamada de biocouture, como a da designer Suzane Lee, pioneira na biofabricação à frente do Modern Meadow e, mais recentemente, a parceria entre a estilista Stella McCartney e o laboratório Bolt Threads, que reproduziram sua bolsa Falabella utilizando o biotecido Mylo, feito de fungos micélios. Essa versão da bolsa está em exposição no museu londrino Victoria & Albert até 27/1.

Por aqui, essa oferta de matéria-prima também já acontece, mas em menor escala, por meio de lab-ateliês como o Biotecam e o Antimatéria, que apresentaram seu trabalho no último Salão Inspira Mais nessa semana.

Voltada a acessórios, o Antimatéria desenvolveu pulseiras, cintos e broches que dividiram as atenções dos compradores da feira com os produtos de couro, além do primeiro calçado conceito biohíbrido, feito em parceria com a vegana IPADMA, que combina biomateriais com matéria-prima reciclada.

“No Antimatéria trabalhamos com reaproveitamos de materiais convencionais também, mas nosso foco é a pesquisa sobre B-Cel, um biotêxtil feito da fermentação de bactérias e leveduras que resulta em biocelulose”, explica a designer Irene Flesh.

Há dois anos desenvolvendo o B-Cel em terras brasileiras, a designer conta que precisou entender a fundo o comportamento dos microorganismos para começar a produzir o biotecido, necessidade que a levou a cursar o mestrado em biotecnologia, no qual ela atualmente estuda a intersecção dos biomateriais no design.

“Já pensou se as roupas que a gente usa fossem biodegradáveis? Poderíamos transformá-las em adubo no jardim de casa e contribuir para que o ciclo linear acabasse”, reflete Irene.

A designer explica que outra grande possibilidade para os biomateriais é a sua capacidade de interação com o corpo humano, algo que, em tese, pode estabelecer uma relação ganha-ganha entre o bioma da nossa pele e a colônia de microorganismos vivos no biotecido. “Podemos imaginar meios de hackear o suor, por exemplo, para desenvolver fibras que inibam o mau-cheiro do corpo”, explica Irene.

Contudo, a designer alerta que há desafios para incorporação dos biotêxteis ao mercado. “Como são microorganismos que produzem as culturas, nós esperamos até 1 mês para ter uma fibra nas mãos, um tempo muito grande se pensarmos em quão descartável a moda é hoje”, revela Irene, que arremata, “o consumo dos biomateriais exige uma mudança de paradigma sobre a lógica de produção linear, que esgota os recursos naturais. É esse pensamento que tem que acabar”.

Fotos: Marcella Ferrari Boscolo

Imagem em destaque: Divulgação do lab-ateliê Antimatéria

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