O comércio eletrônico foi um dos poucos setores a remar na contramão da crise em 2016, registrando crescimento nominal de 7,4% em vendas e faturamento de R$44 milhões, de acordo com o 35º Webshoppers, estudo realizado pela Ebit, que também aponta o retorno da categoria de moda e acessórios ao topo das vendas, com 13,6% do volume dos pedidos, e projeta um aumento de 12% no resultado das vendas de 2017.

Maya Mattiazzo, docente do Senac São Paulo

Maya Mattiazzo, docente do Senac São Paulo

Fatores como a adesão ao comércio mobile, meio pelo qual cerca de 21% das compras foram realizadas no período, além dos preços mais baixos no varejo on-line em relação ao físico contribuíram para que 1/4 da população brasileira realizasse compras pela internet ao menos uma vez ano passado. Contudo, no trade de moda, apenas 15% dos pequenos empreendedores realizam vendas pela internet, dos quais somente 28% em site próprio, de acordo com apuração realizada pelo Sebrae.

Nesse cenário de expansão das possibilidades de modelos de negócio, abre-se a discussão para a operacionalização das vendas see now, buy now de forma integrada com todos os canais de uma marca. Quem fala sobre o tema é Maya Mattiazzo, especialista em negócios da moda e docente do curso Moda E-commerce do Senac Lapa Faustolo, que também dá dicas sobre a manutenção de perfis das labels em redes sociais. Confira:

 

O que você tem observado sobre o see now, buy now, saída adotada por marcas nacionais e estrangeiras, na prática do omnichannel (venda integrada em todos os canais da marca)?
Tenho observado que estamos atrasados em relação aos EUA, mas num movimento positivo para conseguir colocar em prática algumas estratégias.
As marcas nacionais de forma geral já entenderam o movimento see now, buy now, perceberam que é um caminho sem volta. O problema está na execução, seja por questões fiscais, tributárias ou de tecnologia.
De forma geral, vejo as equipes comerciais ainda muito resistentes em relação a esse movimento, não entendendo o potencial que poderia gerar de venda, e marcas buscando formas de remunerar suas equipes no movimento omnichannel.

 

Você acredita que as redes sociais canibalizaram o calendário de lançamentos de moda?
Não acho. Penso que a internet trouxe uma velocidade nova para a moda. Possibilitou o acesso a informação para um número muito maior de pessoas. Desfilar uma coleção, falar sobre tendências que estão ao acesso de todos e esperar seis meses para colocar tudo na loja não faz mais sentido. Quando o produto chega na loja já parece ser antigo.

 

Em tempos de bombardeio de propaganda online, como as marcas podem se destacar para o público?
Com certeza, com conteúdo relevante. Como saber o que é relevante para o seu público? Cerque-o. Saiba com o que ele se engaja, quais palavras ativam nele o melhor.

 

Existe uma média de postagens recomendada às marcas hoje em dia? Como funciona esse trabalho de alimentação de conteúdo de marca em redes sociais?
Não existe um número exato. Depende de uma série de variáveis, como por exemplo, se a marca está entrando no mercado, de que forma suas concorrentes se comportam e com que público querem falar.
De forma geral, a relevância é mais importante do que a frequência, entender a forma de se comunicar é mais interessante do que comunicar coisas que não conversam ou não geram engajamento com os seguidores.
Um forte tendência são os lives, ou histories. Esses estão fazendo com que os clientes se sintam muito mais próximos das marcas e vendo um conteúdo mais real.

 

Quais as métricas em alta para cálculo de roi (retorno sobre o investimento) em mídias sociais?
Depende do objetivo. Você pode começar a trabalhar nas redes sociais e querer seguidores num primeiro momento. Nesse caso, irá produzir um certo tipo de conteúdo com objetivo de comunicar valores da marca para conseguir seguidores relevantes.
Se você já tiver seguidores e quiser apresentar o vídeo da campanha, o roi pode ser o engajamento (curtidas, comentários e compartilhamentos), já se tiver e-commerce, o roi sempre será medido em vendas, sendo cadastro um outro roi importante.

 

Qual tendência tende a crescer mais com a viralização de conteúdo em redes sociais? Fast ou slow fashion?
Tenho observado o crescimento do slow fashion. Não só para que passemos a consumir em outra velocidade, mas que passemos a pensar mais antes de consumir moda.
Isso passa por incentivar pequenas marcas, saber se estão remunerando todos os envolvidos da cadeia de forma justa, se estão agredindo o meio ambiente, se o preço pelo qual estão vendendo os produtos é justo. Isso sem falar em evitar marcas que utilizem mão-de-obra escrava no processo de produção.

 

Como as marcas têm encarado a indústria 4.0? O exemplo da Farfetch, de desmaterialização da operação, está próximo ou distante de nós?
Falando do conceito de Indústria 4.0 na moda brasileira, infelizmente ainda estamos engatinhando. As marcas de moda são, de forma geral, empresas familiares e isso impacta em certos investimentos necessários. Os wearables talvez sejam o que está mais próximo a nós quando falamos de 4.0.
Contudo, a “desmaterialização” não está tão distante. A MeMove, do Grupo Valdac, trazia um conceito bastante parecido, com self check-out e tablets nos provadores quando isso ainda não era tão popular no Brasil. Eles estavam claramente mirando nos millenials, mas o projeto não foi pra frente como o esperado. Creio que o consumidor brasileiro ainda esteja aprendendo a absorver esses novos modelos.

 

O Ebay lançou um e-commerce nativo para VR (realidade virtual) ano passado. Qual o potencial das tecnologias imersivas para as marcas de moda?
O potencial é absurdo! Desde fazer o cliente passar por um processo de imersão no processo criativo da coleção para compreender mais facilmente o valor agregado a um determinado produto, até as possibilidades de co-criação, impressão 3D e muito mais. Estou ansiosa por esses dias!

 

Foto: Agência Fotosite

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