Direcionamento dos desfiles ao público final das marcas vai forçar alinhamento das entregas nos showrooms para os compradores de moda

Principal novidade da temporada de desfiles, o See Now, Buy Now, movimento que propõe o lançamento das coleções nas passarelas em pronta-entrega para o cliente final, já foi incorporado por marcas internacionais como Burberry, Tommy Hilfiger, Vetements e DVF.

Por aqui, tal modelo de negócio já era prática de algumas marcas do prêt-à-porter, como a Ricardo Almeida e a Cia. Marítima, mas ganhou visibilidade justamente a partir do anúncio de adesão da SPFW, na edição de abril deste ano, apesar de contar só com os desfiles da Riachuelo e Ellus 2nd Floor nos novos moldes, motivo pelo qual o executivo Paulo Borges anunciou que o ano de 2016 ainda é um período de transição para o mercado.

Independente de termos ou não o See Now, Buy Now, é importante lembrar que o ciclo de produção de uma coleção, desde o conceito até a entrega das encomendas, ainda leva cerca de seis meses para se completar e, sendo a Semana de Moda um evento oficialmente direcionado ao cliente final, fica a dúvida sobre o apelo dos desfiles para os compradores de moda de agora em diante.

Para entender qual é o espaço do cliente de atacado nessa nova proposta de lançamentos, conversamos com José Xavier, sócio do Fashionroom, um dos maiores showrooms do Brasil, que entende que a mudança trará mais profissionalismo ao mercado, “antes, cada marca fazia as entregas na hora que bem entendia, agora, quem não pensar no cliente, vai dançar”. Confira:

 

Como tem sido o desempenho das vendas durante este ano de crises turbulentas?
A alta do dólar trouxe mais compradores estrangeiros para cá, além dos compradores brasileiros, que deixaram de comprar lá fora, mas é preciso estar atento aos detalhes. Em tempos de crise, é comum as vendas das marcas masculinas e de acessórios desacelerarem, por isso remodelamos nosso mix de marcas a cada seis meses, estamos em constante avaliação.
Até mesmo o aumento das passagens aéreas por conta das Olimpíadas é indicador para nós, motivo pelo qual fortalecemos o atendimento consultivo on-line.

 

Quais mudanças o See Now, Buy Now trará para os compradores de moda?
Antes desse anúncio da SPFW, as marcas planejavam o lançamento das coleções nos showrooms quando bem entendiam, agora, quem não pensar no cliente, vai dançar, pois ele vai gastar a verba dele de acordo com o calendário adotado pelo mercado. As coleções desfiladas em fevereiro chegarão aos showrooms cerca de três meses antes para a apresentação para os compradores.

 

Então isso será bom para eles?
Sim, ao contrário dos compradores estrangeiros, que são contratados para fazer apenas isso, os brasileiros são muitas vezes os próprios donos do negócio, As marcas precisam entender que simplificar a vida deles será imperativo para manter o bom relacionamento. Creio que humanizar seja a palavra de ordem do ano.

 

Os compradores não vão mais participar dos desfiles?
Cada vez menos os desfiles ainda movimentarão os compradores de moda, porque a maioria das marcas não prioriza os convites para eles e é necessário ficar se humilhando para conseguir assistir aos shows.
As marcas ainda hoje fazem os desfiles para os amigos, ficam inflando o próprio ego, ao invés de perceberem o real propósito da ação.

 

Então quando os compradores conferem os lançamentos? 
Os compradores vêm ao showroom cerca de três meses antes do See Now, Buy Now e já fazem as encomendas. Estamos desenvolvendo ainda o Re-see, um momento de conferir os lançamentos outra vez logo após os desfiles e já retirar as peças em pronta-entrega.

 

Quais marcas conseguirão se manter na SPFW nesse novo esquema?
O Paulo Borges já transformou a SPFW num evento do varejo. Com isso, mais marcas grandes vão se interessar em participar do evento novamente, principalmente as que possuem lojas em shopping, como a Animale, além das marcas de fast fashion e outras conceituais.

 

E as marcas menores?
Olha, a SPFW custa no mínimo 150 mil reais para uma marca que não é convidada, isso por si já é um corte. O grande movimento tem sido a contratação de designers de peso por grandes nomes da indústria, como o trabalho que o Dudu Bertholini e a Juliana Jabour desenvolveram com a Lunelli. A grande indústria não tem ideias tão boas, por causa do compromisso comercial, já os designers não tem capital para desenvolver as próprias ideias.

 

Se as colaborações serão mais frequentes, como fica o teor conceitual dos desfiles?
Os desfiles precisarão ter mais leitura para o cliente final, senão não terá sentido fazer o See Now, Buy Now. Nesse sentido, o styling vai se sobrepôr à apoteose criativa do estilista, o que não é nada novo também, marcas como a Vetements fazem isso.

 

Mas se os desfiles acontecem para o público final, não deveriam ser abertos?
O mundo inteiro está questionando o formato do show, em vários aspectos. Há quem se apoie no entretenimento, como o Kayne West fez no Madison Square Garden, ou na experiência, como a DVF fez na loja dela. Por aqui, é possível até pleitear verba pela Lei Rouanet, como já foi feito, mas daí é preciso ter algum legado cultural de contrapartida. Vamos ver, né?

 

Foto: Marcella Ferrari Boscolo

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