Primeiro dia do evento trouxe discussões sobre obesidade, esteriótipos, mercado e publicidade

 

Da esquerda para a direita: Aliana Aires, Maria Adelina, Selma Felerico, Denise Benuzzi de Sant'Anna, Flavia Durante e Débora Fernandes

Da esquerda para a direita: Aliana Aires, Maria Adelina, Selma Felerico, Denise Benuzzi de Sant’Anna, Flavia Durante e Débora Fernandes

 

Curves, plus size, gordo, gordinho. Vários são os adjetivos para discriminar o corpo com medidas acima daquele que domina os editoriais publicitários. Curiosamente, é esse mercado que agora se vê às voltas com as demandas de representatividade do público plus, que já constitui mais da metade da população brasileira, de acordo com os dados da ABPS (Associação Brasileira Plus Size).

Sim, é verdade que, na era da hipervisualização e das selfies, uma simples imagem mata, mas também tem o poder de gerar identificação e autoestima. Para discutir a visibilidade do público plus size, tendo em vista os esteriótipos, mercado e publicidade, o Senac Lapa Faustolo sediou ontem o 1º Fórum mais Fashion, que contou com personalidades como a estilista e blogueira Débora Fernandes, que há uma ano desenha a linha fitness plus size da Gamaia, a jornalista Flávia Durante, que organiza a feira Pop Plus Size e Luciane Barros, produtora do APSFWB (África Plus Size Fashion Week Brasil).

“Precisamos articular os discursos do mercado com o meio acadêmico sobre o segmento plus size, pois existe uma demanda reprimida de profissionais capacitados para atendê-lo”, explica Jô Souza, professora da pós-graduação de moda do Senac Lapa Faustolo, que organizou o evento junto às professoras Aliana Aires e Denise Tangerino, a estilista Raquel Quinderé e a empreendedora Mariana Camargo.

 

Meu corpo e eu

O desafio de redirecionar a imagem de moda para os corpos marginalizados é grande. Sobre isso, Jô comenta, “o conceito de beleza ideal não existe, precisamos trabalhar a beleza dos diferentes tipos de corpo por meio da autoestima, nós somos os donos dos nossos corpos”.

Mas a verdade é que a indústria da moda, uma das principais vitrines da publicidade, impõe padrões quase sempre inatingíveis, motivo pelo qual a maioria das palestrantes resgatou um histórico de luta contra o próprio corpo. “Antes de eu entender que era feliz, recorri às mais diversas dietas e medicamentos para emagrecer, o que desencadeou um transtorno alimentar e a compulsão por remédios em mim”, conta Débora Fernandes.

Débora Fernandes

Débora Fernandes

A estilista lembra também que foi uma primeira experiência como modelo, em 2009, que despertou nela a coragem de assumir as próprias medidas e, em 2011, abrir seu blog de moda plus. “Sempre torcia o nariz para tutoriais e looks do dia, porém, aprendi que eles estimulam minhas leitoras a se aceitarem”, revela Débora, que continua sobre as barreiras de lançar uma linha fitness para o segmento plus. “Eu era muito infeliz por não poder vestir as roupas que eu mesma desenhava, não ir à academia simplesmente por não ter roupas. Ironicamente, a coleção plus superou as vendas da grade regular em apenas um ano de lançamento”.

Aliana Aires, doutoranda em Ciências do Consumo, propõe uma reflexão sobre a tal ditadura dos padrões. “Os extremos da magreza e da obesidade trazem uma discussão muito mais profunda para nós, a emergência do histórico do corpo como objeto tão perseguido, alvo de bullying e autoflagelação.”

 

Representatividade como suporte para autoestima

Luciane Bastos

Luciane Barros

Luciane Barros, que no último SPFW deu um close certo ao selecionar o casting da Lab, o mais comentado do evento, conta que para ela, foi mais fácil trazer à tona as múltiplas expressões femininas inspiradas pela cultura africana no segmento plus size do que no tradicional, motivo pelo qual fundou o APSFWB. “O nosso objetivo é justamente inserir estilistas e modelos afro dedicados ao plus size no mercado e gerar representatividade para todos os corpos.”

Criar conexões com pessoas semelhantes foi o impulso que motivou a jornalista Flávia Durante a realizar a primeira edição do Pop Plus Size há quatro anos. A feira é inspirada no Mercado Mundo Mix e reúne marcas descoladas com proposta de moda para o público plus. “Eu comecei a vender biquínis diferentes para as minhas amigas e, muitos pedidos depois, vi que tinha um bom negócio em mãos, afinal, as mulheres gordas sempre foram obrigadas a comprar roupas para o público mais velho por falta de opção. Biquíni, nem pensar até então”, relembra Flávia.

Contudo, dentro do mercado de “tamanhos maiores”, há a subdivisão de curves, para manequins entre 44 e 48. Com ela, vem a discussão sobre lugar de fala das modelos curves versus as plus size, que vão até o manequim 66. “Acho superlegal haver as modelos curves, porém elas não devem trabalhar para divulgação de tamanhos ditos plus size, pois isso nos marginaliza dentro do nosso próprio espaço”, salienta a modelo Andréa Boschim.

Ana Cláudia

Ana Cláudia

Sobre isso, a semioticista Ana Cláudia de Oliveira expande a discussão das “caixinhas de padrões” para o universo de complexidades de cada indivíduo.  “Apesar da publicidade estabelecer padrões para direcionar produtos e serviços que ela deseja nos vender, qual é o padrão que descobrimos em nós mesmas? Precisamos entender que nossos valores não são moldados apenas na economia, precisamos nos alimentar no que é nosso, nutrir o corpo com a nossa própria singularidade”, finaliza.

 

Fotos: Marcella Ferrari Boscolo

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