Amor e respeito são as principais mensagens do desfile, inpirado na obra de Ney Galvão

Transformação, transgressão, transição. A 42ª edição do SPFW, intitulada trans, entra para a história por trazer a discussão sobre a falência dos modelos tradicionais de corpo e de negócios da moda à passarela.

Muito mais do que o novo shape da temporada e das peças see now, buy now, foram as histórias centradas no ser humano que chamaram a atenção.

Foi assim na estreia da Lab, com Emicida e Fióti borrando as fronteiras entre a passarela e as ruas, em looks street marcados por ícones da miscigenação cultural, para contar a história do samurai africano Yasuke, ou com a inquietação de Fernanda Yamamoto que, ao expor o avesso das costuras em sua instalação na Pinacoteca, provocava a plateia a compreender a moda para além das aparências.

O debut da Just Kids, label da Juliana Jabour e Karen Fuke, também trouxe o manifesto antimoda presente na biografia das estilistas, mas ficou a cargo de Ronaldo Fraga falar de amor e humanidade para um mercado que se importa cada vez mais com números. “Sou um estilista extremamente repetitivo, continuo falando de amor”, disse ele no backstage.

Ao escolher um casting de 27 mulheres trans no país que mais registra mortes de travestis e transsexuais no mundo, Ronaldo chama a atenção para a representatividade dessas pessoas, tão legadas à margem, e expande o discurso da diversidade a favor do da humanidade. Afinal de contas, no que somos tão diferentes uns dos outros enquanto seres humanos?

Ainda no backstage, Ronaldo responde ao #ModaInfo essa pergunta: “independente de classe social, do background cultural, tem coisas que doem no mesmo lugar para todo mundo. Eu acho que quem pretende chegar no consumo de massa deveria pensar no mínimo de conexão com a dor do nosso tempo”.

A coleção, intitulada “El Día que me Quieras”, homenageou o estilista baiano Ney Galvão, que possuía uma loja em Itabuna com o mesmo nome do tango de Gardel, e, apesar de trazer vestidos com silhueta inspirada nos tubinhos das décadas de 20 e 30, eram estampados com desenhos feitos à mão como se fossem roupas de bonecas. “Eu quis brincar com a roupa, por isso desenhei os detalhes ao invés de fazer bordados, por exemplo. Quis que os corpos delas trouxessem as formas aos vestidos, assim como eu acredito que são as histórias das pessoas que conduzem a moda, não o contrário”, conclui.

E para quem ainda levanta a bola de apropriação do local de fala pela passarela neste caso, eis o depoimento do produtor executivo do desfile, Diego Casmurro, a.k.a. Saory White, que também selecionou as modelos. “Esse desfile foi pensado para mudar a história de vida das pessoas. Uma das modelos me contou com que o pai voltou a falar com ela após três anos de silêncio”, conta.

Nos tempos sombrios atuais, em que tanto os modelos sociais quanto os valores morais parecem se liquefazerem como se não houvesse o dia de amanhã, eliminando as vias para o diálogo construtivo, são as pausas de resistência que nos dão força para refletirmos e, enfim, seguirmos adiante.

 

Fotos: Agência Fotosite

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