Qual é a sua Utopia? A pergunta, que remonta à definição da quimera de Thomas More na criação do termo, em 1516, foi o ponto de partida do 47º SPFW (São Paulo Fashion Week), que aconteceu semana passada, reunindo novos talentos do trade, como as marcas sustentáveis do Projeto Estufa, à velha guarda fashion.

Infelizmente, dadas as circunstâncias da morte de Tales Cotta no sábado, modelo socorrido por bombeiros após passar mal na passarela no mesmo dia, a discussão que prevaleceu nas redes sociais apontou justamente no lado oposto da fantasia proposta pela organização: o distópico black mirror em que o evento segue seu planejamento normal apesar de uma fatalidade.

A atitude de ter mantido a programação após a confirmação desse incidente comoveu os milhares de espectadores e participantes do SPFW em torno da seguinte questão: o show nunca pode parar?

Isso porque, apesar de não parecer, vivemos o despertar da autocrítica nesse meio, impulsionada por movimentos como o Fashion Revolution Week, que se encerrou nesse mesmo dia fatídico esse ano e questiona as condições de trabalho na indústria, assim como pelas demandas de diversidade e representatividade nas imagens, que quebram padrões estéticos e narrativos da branquitude, e as recorrentes denúncias de assédio que ecoam pelo mundo.

Essas manifestações convergem para a revolução da empatia que, por centrar as relações humanas em torno de um valor, só se prova na prática, sobrepondo-se à cultura da aparência, ou da negligência blasê, cultuadas na nossa sociedade pós-moderna até então.

Coincidentemente, quarta-feira passada, fizemos uma ativação para o próximo Senac Moda Informação no desfile do João Pimenta, que também atua como consultor criativo do Senac SP, com adesivos nos assentos da sala que perguntavam aos presentes o seguinte; se imagem é tudo, onde fica o ser humano?

A pergunta, que não tem resposta pronta, foi justamente um dos insights que nortearam a nossa programação, voltada à discussão da criação de imagens contemporâneas de moda, justamente por sabermos que, nesse meio, os corpos são esticados, clareados, coloridos e camuflados com o intuito de transformar o impulso de sedução em compra.

É preciso levar em conta que a atual reprodução desenfreada dessa projeção surreal de “sucesso” é um dos principais gatilhos de insatisfações e baixa autoestima nas pessoas e que, para reverter esse quadro, precisamos questionar nosso propósito com a criação de mais imagens de moda no mundo.

Nós do #ModaInfo, acreditamos que esse movimento geral em busca de transparência vem justamente para oxigenar a ressaca da hipervisualização que vivemos há um certo tempo, a qual piorou com o aumento exposição de pessoas e marcas nas redes sociais, que requerem uma quantidade cada vez maior de imagens para alcançar os mesmos resultados de dois anos atrás.

Durante as semanas de desfiles mesmo, cujas experiências estão cada vez mais orientadas para a cobertura on-line, é quase impossível analisar os detalhes das roupas ao vivo, com modelos passando super-rápido pela plateia, em salas projetadas quase que exclusivamente para o pit e lotadas de gente com o celular na mão. A quem esses fragmentos de imagem atendem hoje em dia?

Cabe lembrar que, nesse contexto de descontrole inflacional estético, a repetição é inevitável e fecha as portas da inovação, condição que não se aplica apenas à cobertura de desfiles de moda, visto que a enxurrada de imagens postadas diariamente nas redes sociais está fazendo o Instagram repensar suas métricas, ocultando os likes das publicações.

Voltando ao SPFW N47, sabemos que a decisão de seguir em frente com o espetáculo apesar de uma fatalidade não é inédito no mundo do entretenimento, haja vista as notícias de morte de jogadores de futebol durante as partidas, mas queremos propor aqui uma reflexão para o setor responsável por criar nossa segunda pele, qual é o nosso papel na regeneração de uma moda verdadeiramente humana? Porque, de produtos e desfiles, o mundo já está cheio.

Sabemos que a resposta para essa pergunta também não está pronta, mas é preciso tirarmos o foco do ponto de vista incensado dos holofotes para procurarmos por iniciativas capazes de nos ajudar no exercício da reconciliação da ética com a estética, para que, de fato, uma imagem seja capaz de valer mais do que mil palavras.

Há marcas inovando de fato em termos de sustentabilidade de produtos, processos e relações, criativos que rompem com a lógica da reprodução de modismos, críticos interessados em abordagens propositivas e pessoas questionando padrões de beleza, de afeto, de narrativas.

Algumas delas, inclusive, desfilaram suas mensagens no SPFW, numa clara tentativa de o evento reivindicar para si o lugar de curador da vanguarda do nosso tempo, posição que, percebemos, a própria estrutura não lhe permite pois, em tempos de redescoberta da empatia, não é a efêmera passagem dos desfiles que vai conectar o público com as marcas, mas sim a sua identificação com o propósito no mundo.

Por isso, ressaltamos que só haverá mudanças concretas na forma de pensar e comunicar moda se ela refletir o nosso desenvolvimento humano enquanto rede que, ao mesmo tempo, cria, realiza e consome as imagens que propõe ao mundo. E essa conversa não é sobre futuro, já está acontecendo por aí.

Caso contrário, continuaremos à deriva nesse black mirror confundindo o nosso tempo de transição de modelos mentais com utopia, palavra que, além de significar um ideal que NUNCA se concretiza em vida, se traduz em grego ao pé da letra ironicamente como não lugar.

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O desafio de ressignificar a criação de imagens de moda já foi tema de artigo publicado pela Nathalia Anjos, coordenadora de conteúdo do #ModaInfo, no site Modefica:

Foto: Desfile do Projeto Ponto Firme no SPFW N47/ Agência Fotosite

 

 

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