A Sustainable Brands, plataforma norte-americana de global de inovação, realizou nessa semana sua primeira edição em São Paulo, após quatro edições no Rio de Janeiro, para discutir transformações para um futuro sustentável unindo frentes como tecnologia, alimentação, logística, energia, finanças, ativismo e moda.

Na arena Good Fashion, fomentada pelo Instituto C&A, Herman Bessler, da Malha, na foto acima, apresentou o report mais recente do coletivo chamado O Poder do Planeta, O Poder das Pessoas, elaborado em creative commons e disponível gratuitamente para download, que aborda tendências nos âmbitos cultural, social, econômico e ambiental para o futuro da moda.

Nele, além de cases de cocriação, economia colaborativa, inovação das matérias-primas e consumo de nicho e o entendimento de moda como autoexpressão, abordados por Herman em seu talk no último #ModaInfo, o coletivo chamou a atenção para a geração de valor como solução para reverter o cenário atual de escassez de recursos naturais e humanos em abundância.

Segundo o criativo, o costume de associar o sucesso ao crescimento financeiro é o grande responsável pela intimidação de novos modelos de negócio, que também levam em consideração a transformação social como um marcador de desenvolvimento. “Quando a gente descola a medida de crescimento da geração de valor pra comunidade que usa aquele bem ou serviço, a gente perde a capacidade de privilegiar os negócios que podem ser restaurativos e benéficos pro sistema econômico”, acredita Herman.

A lógica de mercado atual cria uma cadeia de incentivo perversa para quem está começando e se sente obrigado a simplesmente colocar mais produtos no mundo, sem pensar em gerar valor com o próprio trabalho para a comunidade”

Herman Bessler

Malha.cc

No mercado

Laboratório de Moda Sustentável

Laboratório de Moda Sustentável

A geração de valor na cadeia de moda também foi tema do talk que reuniu a Abit (Associação Brasileira da Indústria Têxtil), a ABVTEX (Associação Brasileira do Varejo Têxtil), a OIT (Organização Internacional do Trabalho), e o Instituto C&A, para criação de uma agenda de transformações estruturais para o setor até 2.035, em fase de desenvolvimento no Laboratório de Moda Sustentável, divulgado em junho.

Segundo a Abit, o trade têxtil e de moda é composto por mais de 33 mil empresas registradas no Brasil e tem na informalidade, que chega a atingir 40% das marcas de varejo, um dos seus maiores desafios na geração de valor ao lado da mão-de-obra escrava, que de acordo com a OIT acomete mais de 160 mil pessoas em nosso país.

“Os casos de informalidade, condições de trabalho precarizado ou forçado, rastreamento das matérias-primas e sustentabilidade estão no foco da nossa agenda”, diz Edmundo Lima, da ABVTEX, sobre o projeto.

Camila Zelezoglo, da Abit, continuou o panorama explicando que o maior desafio de alinhar os interesses do segmento é integrar os processos da indústria e do comércio, compostos principalmente por empresas de grande porte, aos das confecções, quase sempre pequenas. “Além da integração, precisamos disseminar uma nova mentalidade sobre processos, produtos e relações de trabalho”, afirma.

 

Produção Circular 

A lógica do reaproveitamento integral das matérias-primas incentivada no consumo circular arrematou os talks como uma solução para a produção de lixo no trade de moda, uma das indústrias mais poluentes do planeta, apostando em iniciativas como a aceleração de cooperativas especializadas no tratamento de retalhos têxteis e programas de logística reversa.

Uma delas é o projeto-piloto Reciclo, da C&A, que recebe roupas dos clientes para doação ou reaproveitamento da matéria-prima para outros fins, como o desfibramento. “Hoje, a indústria que mais recebe tecidos desfibrados é a automobilística, mas ainda há muito o que se fazer em termos de logística e tecnologia para redesenhar a relação das marcas com a escalabilidade x custo de seus produtos e serviços”, conclui Giuliana Ortega, do Instituto C&A.

Lixo é um erro de design

Reflexão nas instalações do Sustainable Brands/ Foto: Marcella Ferrari Boscolo

De acordo com o Sinditêxtil, 20 toneladas de roupas e resíduos têxteis são descartados por dia apenas no Bom Retiro. Além de pensar em estratégias de reaproveitamento desses insumos, é importante que a moda questione o porquê de sua produção pré-destinada ao lixo e por no lápis, desde o início, toda a energia desprendida nos diversos elos da cadeia de forma inútil.

Desta forma, não se criará mais fluxos, onerosos em termos financeiros e sociais, para dar conta do problema criado numa lógica ultrapassada de obsolescência programada, cujo peso da pegada ambiental já se sobrepõe à capacidade de regeneração  dos recursos naturais do planeta, deixando muito pouco a se fazer pelas próximas gerações.

 

Crédito da imagem em destaque: Diego Garcia

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