Nele, o tecido é tanto o produto final quanto a moeda de troca

 

Lu Bueno

Lu Bueno

Considerando que os artigos de moda sejam talvez aqueles de menor e mais frágil vida útil, uma vez que estão inseridos num sistema que tem a novidade como valor, pensar em reaproveitamento de insumos é um desafio e tanto para o setor.  De acordo com o Sinditêxtil, 20 toneladas de roupas e resíduos têxteis são descartados por dia apenas na região do Bom Retiro. E com eles, o investimento em tempo e dinheiro para produção é jogado fora.

Há quem encare esse cenário como oportunidade pura, como a figurinista Lu Bueno, criadora do Banco de Tecido que, desde 2013, realiza transações comerciais dos tecidos utilizando-os também como principal moeda de troca. Incomodada com a quantidade de insumos têxteis parada em seu escritório, Lu começou a trocar peças de tecido com seus amigos.

“Eu ficava inconformada de ver as sobras dos meus tecidos paradas, pois sabia que elas eram úteis. Quando comecei a realizar as trocas com meus amigos, percebi que tinha um novo negócio em mãos”, explica. Sob a perspectiva de que nada se perde, seu modelo de negócio baseado na economia circular promove a reutilização dos artigos descartados no ciclo de pós-consumo para geração de novos produtos.

Assim, Lu conta que abriu o Banco de Tecido com o seu acervo de meia tonelada, acumulado em mais de duas décadas de profissão, e, nos seis meses seguintes, recebeu mais 1 tonelada dos clientes correntistas. “Essa é a nossa capacidade total de armazenamento até hoje”, relata a empresária, que não tem pretensão de fazer do banco um hipermercado, “se nos tornarmos enormes, significa que entramos na lógica megalomaníaca do consumismo, não quero isso”.

 

Na prática

balanca

Balança utilizada na pesagem dos tecidos

Funciona assim, os correntistas depositam seu tecido ao preço de 45 reais o quilo para venda, dos quais o banco retém 25% em quilo, independente de ser um corte de algodão ou seda. “As pessoas podem pagar com dinheiro e com tecido também”, afirma Lu. O mesmo acontece com os correntistas, que recebem sua parte em dinheiro ou tecido.

Assim, o projeto opera com diferentes stakeholders, desde costureiras e artesãos até marcas de moda conhecidas, como a Insecta Shoes e a Flavia Aranha. Contudo, Lu explica que as grandes marcas ainda não conseguem comprar do banco por conta da alta demanda de compra de um mesmo tecido. “A moda é o segundo mercado mundial e propaga as tendências com previsão de dois anos para o setor. O efeito colateral disso é o desperdício, não há como lidar”, avalia.

O banco vende hoje 6 mil reais por mês, mas Lu revela que a projeção é que ele fature quatro vezes mais no período. “Para isso, eu preciso me dedicar ao projeto, hoje estou focada em desenvolver o modelo de negócio. A minha meta é estruturá-lo até maio do ano que vem”, finaliza.

Além da sede, na Vila Leopoldina, há uma unidade no Lab fashion, localizada na Consolação, e na Casa base, em Curitiba. Saiba mais sobre a iniciativa em: www.bancodetecido.com.br

 

Fotos: Marcella Ferrari Boscolo